Meu amigo espelho

 


Meu amigo espelho


O tempo tornou-se um oceano tão vasto que já não avisto a margem de onde partimos, perdendo-se na memória o exato instante em que nossas órbitas se cruzaram. Aquele início foi um feitiço sussurrado, um quase amor que floresceu antes mesmo da primeira despedida. Sentados um diante do outro, tecemos uma rede de palavras que sustentou a noite inteira, em um diálogo que reluzia como ouro puro, transbordando uma genuína entrega. Eu o via sob o manto de uma elegância quase aristocrática, admirando o cuidado cirúrgico com que ele tocava em feridas e temas sensíveis. Suas palavras eram plumas que me faziam sentir, por contraste, como uma rocha bruta e rude, envergonhada diante de tanta delicadeza. Eu o via como um porto seguro, um ouvinte cujo silêncio era um convite, acreditando piamente que vivíamos uma dança de trocas perfeitas.

Contudo, o relógio é um mestre cruel que desgasta as máscaras mais polidas. Aquele que eu julgava ser um templo de escuta revelou-se um muro de interrupções, onde minhas frases eram decapitadas antes mesmo de ganharem fôlego. O "sabe o que você faz?" tornou-se um martelo constante, seguido pelo "deveria ter feito isso", sentenças proferidas sobre problemas que, para mim, sequer tinham corpo ou sombra. A decepção caiu como uma geada sobre o que eu acreditava ser fértil. Percebi que não havia um rio de trocas, mas um monólogo de prepotência. Aquela doçura aparente era apenas um veneno açucarado; sob a capa de um tom "fofinho", ele desferia golpes que invalidavam minha capacidade de decidir, tratando-me como uma eterna criança perdida em um labirinto sem saída.

Minha própria honestidade, que por vezes se manifesta com a rigidez de um carvalho, não poderia mais ser confundida com a aceitação de sua agressividade disfarçada. Olhando através do espelho da alma, a epifania me atingiu como um raio: o que eu batizei de delicadeza era, na verdade, uma faca amolada envolta em seda. Tomei o espinho pela pétala e só agora reconheço o engano de ter me sentido invadida por quem fui covarde em colocar limites. Mesmo diante dessa imagem agora borrada e dessa moldura que range como uma ruína, insisti em sustentar o que já estava morto. Tentei erguer muros timidamente, mas minhas defesas eram de papel diante de sua insistência. Suportei o acúmulo de escombros emocional até que o choque final veio como uma colisão brutal contra a realidade. Diante do vidro trincado que nada mais reflete além de sombras, o questionamento final ecoa no vazio: por que manter um espelho que só devolve o caos e uma moldura que já não sustenta sequer o próprio peso?

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