O Reverso de Amin
A noite pulsava em um sístole e diástole frenético, com a música convidando cada célula a bailar. O ambiente era denso, banhado por uma luz amena e decorado com traços de revolta armada; um lugar de reivindicações onde, na entrada, cada pessoa deixava sua identidade invertida no papel, como se para entrar ali fosse preciso despir-se do óbvio.
Helena e Constância divertiam-se nos embalos da pista, os corpos cedendo à batida grave que parecia vibrar direto no assoalho. O movimento era constante, um fluxo de sombras e suor, até que um grupo de moços, movidos por uma audácia coreografada, envolveu Constância. Eles se aproximaram em bando, fechando um semicírculo que a isolava sutilmente, enquanto as risadas e o ritmo alto criavam uma bolha de atenção exclusiva sobre ela. Quando ela finalmente rompeu o cerco e se retirou ao banheiro, apareceu um homem que tomou seu lugar, deslizando para perto de Helena.
Ela prontamente avisou que a amiga logo voltaria. A conversa ganhou contornos colegiais, cheia de frases curtas e risos fáceis por cima do som. Ao ver o retorno de Constância, o homem — que se chamava Amin — hesitou; acreditou que Helena estava, na verdade, servindo de ponte, arranjando a amiga para ele. Ele saiu e voltou algumas vezes, orbitando as duas em uma indecisão clara, mas como Constância nem ligou — ocupada demais em manter sua própria aura de disponibilidade para o restante do bar — ele finalmente focou em Helena.
Depois de alguns beijos envolventes e calientes entre Helena e Amin, o clima subiu, mas ele resolveu ir fumar e não retornou mais. Conforme o ambiente esvaziava, Helena sentiu que era hora de ir embora, inclusive sem falar com aquele que tinha saído de perto faz tempo. Foi quando sentiu o peso do olhar de Constância. A Constância da culpa — uma amiga acostumada a ser tão disponível para os homens — através de um semblante carregado, destilou o julgamento de que aquilo era uma atitude infantil. Helena não se importou, mas a mestre na culpa não falhava em seu veredito silencioso.
Constância insistiu e Helena, mesmo contra a vontade, foi até Amin. Disse a ele que iria embora; foi quase sem avisar. Ele insistiu muito para que ela ficasse, e Constância também, mas Helena não quis. No dia seguinte, um domingo de Dia dos Pais, o homem telefonou em uma pseudo calma. Na verdade, ele estava enfurecido por ter se sentido rejeitado. A conversa culminou em uma grande discussão na qual Amin se colocava como vítima. Como Helena aceitou a culpa, ele acabou indo parar na casa dela. Despactualizado, fez proceder o coito numa condução parcial, o que deixou Helena um tanto aborrecida. O papo era religioso, cheio de contradições e projeções; não era raro escutá-lo tropeçar na própria hipocrisia.
Os dias se seguiram em idas e vindas, encontros e desencontros. Amin, sob uma capa de homem ativista, guardava por baixo as mais não nobres desumanidades, desde o trato com a mulher até o toque e a convivência. Era uma criatura explosiva e infantilizada; qualquer coisa mal interpretada gerava alteração de voz ou agressividade. Era cansativo. Seu grau de ética não superava o de uma criança de seis anos que bate no peito e diz: "é meu".
Helena foi se aborrecendo e, com seu tato, fez vários papéis de mediação. No entanto, ele achava que ser adulto era conversar pessoalmente, mas depois dava um jeito de dizer que sequer sabia conversar. Dizia-se livre, mas tinha a ética de um rato no mercado: sem cuidados, sem compromisso e sem aceitar ser tratado como ele tratava Helena. Ela se cansou e deu um ultimato. A criatura, em um ato de misericórdia infantil, pediu-a em casamento. Helena respondeu que não; para isso, precisariam de tempo para lidar com as respectivas humanidades. Algo que nunca se cumpriu.
Helena desistiu ao somar dois grandes acontecimentos. Primeiro, quando ele lhe disse: "você não vale nada porque fica comigo". Depois, quando declarou que gostaria de "calejá-la" com aquela irresponsabilidade. Ele admitia que oferecia pouco e que nada podia — ou queria — fazer; queria apenas receber, mantendo a relação em uma economia emocional falida.
Farta, Helena afastou-se e passou a negar convites. Encontrou-o, porém, em uma festa. Ao ver Helena se divertindo com amigos, Amin enroscou-se em uma moça em uma cena terrível. Tamanha feiura embaçou as vistas de Helena, que mudou de lugar com os amigos. Amin foi ao encalço dela e segurou seu braço. Helena parou, fria. Ele cumprimentou a todos para completar o ato de feiura, e ela apenas encostou a bochecha na dele. Quando ele pensou em iniciar uma conversa, ela o cortou: "uma boa festa para você". Furioso, ele saiu batendo o pé, observando-a de longe enquanto ela lhe virava a cara.
Helena saiu da festa sem dizer tchau, certa de que, ao passar por aquela porta, jamais voltaria. Antes do fim definitivo, ele ligou novamente, repetindo a falsa calma até explodir em vitimismo. Helena interrompeu:
— Vejo uma criança sofrida que acha que vai resolver seu problema se autorizando a fazer o outro sofrer. Sinto muito por essa sua humanidade. Para lhe ajudar, vou lhe calejar com meu excesso de ausência e lhe dar a chance de não mais me barbarizar porque você não vai mais me tratar dessa forma.
Ele apelou aos mais baixos níveis, mas Helena entendeu que não era com ela; cabia ao sujeito haver-se com o próprio sofrimento. Ela se esgotou e preferiu cuidar do cansaço que aquela relação de mais de um ano tinha produzido. "Você não me conheceu e agora é tarde demais, não vai me conhecer. Chega", sentenciou ela. Dias depois, ele enviou uma mensagem. Helena demorou dias para ler e, depois disso, decidiu que não queria mais ler absolutamente nada.

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