Existe algo a perdoar?
A palavra grega para perdão significa algo como "jogar para longe", "libertar-se", "soltar".
Existe algo a perdoar?
Dizem que o que penso do outro é apenas um subproduto da minha própria usina mental, uma destilação exótica de minha educação e cultura que me impede de tocar a realidade alheia. Segundo essa lógica de santidade passiva, eu seria uma cineasta solitária, projetando dramas em telas em branco e sofrendo por roteiros que eu mesma escrevi. Se me sinto ferida, o culpado não seria o espinho, mas a minha pele, por ter a audácia de ser sensível. É uma teoria fascinante, que transforma o agressor em um holograma inofensivo e a vítima em uma ré confessa de sua própria imaginação. No tribunal dessa "compreensão intelectual", a ausência de uma confissão assinada pelo outro vira prova de sua inocência, e o descaso alheio é rebatizado como uma "conexão abstrata" da minha mente.
A ironia é que essa busca por uma confirmação pessoal é o meu maior autoengano, uma tentativa de vestir a falta de limites com o traje de gala da evolução espiritual. Eu abro as portas da minha casa mental, permito que pisoteiem o tapete e, enquanto observo o estrago, pergunto-me qual filtro cultural me fez ver sujeira onde, claramente, só havia o "vazio". A culpa atua aqui como uma anestesia moral para o outro; eu assumo o erro de ter interpretado o golpe, e ele ganha o bônus de ter batido sem precisar limpar o sangue das mãos. É o ápice do altruísmo masoquista: sequestrar a responsabilidade do mundo para que o outro possa flutuar além de qualquer julgamento humano, livre das consequências de ser exatamente a mediocridade que demonstra ser.
Concluir que "não há nada a perdoar" é o golpe de misericórdia na minha própria dignidade. É o perdão por antecipação, um contrato de silêncio assinado para não ter que expulsar do palco quem já deveria ter saído de cena há muito tempo. No fim das contas, não há o que perdoar no outro não porque ele seja inocente, mas porque ele foi promovido por mim a uma divindade intocável, desprovida de intenções. O único perdão urgente, portanto, é o meu para comigo mesma: por ter sido tão generosa ao ponto de me tornar invisível, e por ter tentado encontrar explicações psicológicas complexas para alguém que foi, puramente, egoísta. A dor que sinto não é uma hipótese; é a prova concreta de que a bota do outro existiu, mesmo que minha mente tenha tentado transformá-la em uma miragem.


Comentários