Tento lhe entender
"Tento traduzir o relevo do que és, mas peço perdão pela minha incapacidade de habitá-lo por inteiro. Às vezes, as mãos da minha alma apenas tateiam o contorno da tua experiência; desculpe-me por te oferecer a arquitetura fria do entender quando o que a tua dor pedia era o calor do sentir.
É que cada um de nós carrega o título de indivíduo: essa partícula indivisível que é, em si mesma, a guardiã de um universo único. Somos constelações privadas, portadores de memórias que ninguém mais viveu e de silêncios que nenhum dicionário alcança. Olho-te, a princípio, com a simpatia de quem observa um porto de longe: reconheço a tua luz, mas meus pés ainda sentem o balanço do meu próprio convés.
Contudo, há momentos em que a barreira se torna fumaça. Sem que eu planeje ou decida, ocorre a hospedagem. É um movimento de uma espontaneidade quase mística, onde a tua história, com todas as suas sombras e cores, simplesmente se acomoda no meu peito. Sem esforço, deixo de ser apenas 'eu' para me tornar o lugar onde 'tu' também podes estar. Nossas fronteiras, antes rígidas, revelam-se porosas.
Nesse átimo de tempo, a empatia deixa de ser um exercício intelectual para se tornar um abraço ontológico. Não sou mais um observador do teu universo; tornei-me, por um instante, o solo que te sustenta. Somos muitos, somos únicos e somos sós — mas é nessa sucessão de universos que se hospedam e se somam que a vida deixa de ser um amontoado de ilhas para se tornar a imensidão de um único oceano. É no teu universo acolhido pelo meu que o mundo finalmente se completa."


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