Perdendo tempo e cada vez mais longe do amor
Perdendo tempo e cada vez mais longe do amor
Embalado pelo hábito de observar o fluxo da vida, percebo que existimos em um campo de forças onde as relações humanas muitas vezes tropeçam no abismo da posse. É curioso, e por vezes trágico, como o desejo de pertencer se converte na ilusão de ser dono. Em meus próprios caminhos, senti na pele o peso de correntes invisíveis, especialmente em um ciclo recente onde a possessividade se manifestou como uma sombra persistente, uma criatura que ainda hoje se perde em preces vãs para que o meu caminhar seja solitário. Mas, como bem dizia a sabedoria de minha bisavó, resta-me apenas estimar melhoras para essa alma que adoeceu de controle, enquanto sigo colhendo os frutos da minha própria liberdade e o melhor uso do meu tempo.
Talvez eu flutue fora da órbita comum, mas sinto com clareza que amar é o oposto de possuir. O amor reside na troca, no compartilhamento de luzes e sombras, e quando essa dança é genuína, o instinto de posse torna-se um ruído supérfluo, uma nota dissonante que se dissolve na harmonia do respeito. O possessivo, entretanto, não enxerga o outro; ele enxerga um "objeto pessoa", uma extensão de seus próprios medos e da sua autoimportância exacerbada. Nessa dinâmica, o ser humano é destituído de sua essência, de seus sentimentos e de suas verdades, tornando-se apenas um cenário para as histórias que o controlador escreve em sua própria mente, alimentando-se de paranoias e suspeitas que ele mesmo cultiva.
Nesse processo, o possessivo acredita que segura as rédeas do mundo, sem notar que é o primeiro a ser aprisionado por sua própria armadilha. A autoestima, essa bússola interna, despenca como uma capivara em ribanceira, arrastando consigo a dignidade e a paz. O resultado é um deserto de características negativas, onde o convívio se torna um fardo insustentável. O "objeto pessoa", exaurido pelo peso de uma alma que se alimenta de medo e de um ego inflado, não encontra outra saída senão buscar o amor verdadeiro — aquele que floresce longe do sufocamento e das grades invisíveis. Ao final, resta ao possessivo o eco do tempo perdido, o distanciamento daqueles que um dia o quiseram bem e a amarga desculpa de que o amor é cego, quando, na verdade, foi ele quem se recusou a abrir os olhos para a liberdade de quem dizia amar.


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