Reconheço, no entanto insisto no contrário porque assim todo mundo faz


Reconheço, no entanto insisto no contrário porque assim todo mundo faz

O que realmente você quer do seu filho? Essa pergunta socrática, que deveria ecoar no café da manhã de cada família, carrega um incômodo silencioso: você tem o direito de querer algo dele ou é apenas um instrumento biológico para os primeiros passos, perdendo o cargo de "diretor de vida" logo em seguida? O papel dos pais, afinal, é criar um ser humano ou um sucessor de metas não alcançadas?

Há algum tempo, dei aulas de yôga para um garoto de dez anos que era um compêndio ambulante de dores. Tinha joelhos travados e uma coluna que parecia carregar o peso do mundo. O acompanhamento durou pouco; ele se desanimou rápido, sufocado pelo diagnóstico conveniente de dislexia, hiperatividade e déficit de atenção — essas "normoses" que a sociedade adora carimbar para não ter que olhar nos olhos da criança.

Aos treze, o destino nos reuniu novamente. Desta vez, abandonei os manuais e apostei em um combo de Hatha Yoga, massagem e Yoga Nidra. Acertei no alvo. Ele queria mais, e não era pelas posturas, mas pelo toque e pelo acolhimento — mercadorias raras na casa dele. Antes de cada aula, eu bancava a investigadora: queria saber do dia, das confusões, do caos interno dele. Colhi pérolas do seu universo e tentei, sutilmente, dar pistas à mãe.

O menino estava agressivo e perdido na escola. Uma professora, num surto de lucidez, sugeriu terapia. A mãe, claro, recusou o diagnóstico e prescreveu a velha e "infalível" mão dura. Ele era brilhante, ensinava os colegas, mas na hora da prova o corpo gritava: suava, entrava em pânico e, finalmente, travou na cama com uma dor nas costas que o impedia de levantar. O corpo dele pedia socorro, mas a mãe pedia notas.

Quando meu trabalho começou a dar voz ao garoto, a mãe, num movimento estratégico, cortou as aulas. A desculpa? Ele precisava se aplicar aos estudos e, quem sabe, como prêmio por um bom desempenho, ganharia o direito de voltar a respirar comigo. Tentei argumentar que o Yoga acalma a alma na pré-adolescência, mas meu discurso foi atropelado por uma conduta rígida que, previsivelmente, resultou na retenção escolar do garoto.

O menino estava órfão de acolhimento. Ele queria biológicas, queria a vida, mas o roteiro escrito pelos pais previa que ele "tocasse" os negócios da família. E aqui entra a parte mais fascinante e trágica: a mãe, com uma consciência quase cínica, admitiu que sabia dos desejos contrários do filho, mas que estava "apenas" repetindo o ciclo. Afinal, segundo ela, ninguém faz o que gosta, e trabalhar e estudar nunca foram prazeres. Uma filosofia de vida encantadoravida encantadora, não?

Discordo com cada fibra do meu ser, mas não se invade o território sagrado da educação alheia. Saio de cena com a consciência tranquila de quem doou amor. Ele era tão grato que me preparava café e tentava me segurar o máximo possível, apenas para ter alguém que o ouvisse. Convenci-o a caminhar diariamente, vendendo a ideia de que grandes filósofos pensavam melhor com os pés na estrada. Ele comprou a ideia e virou um "pequeno questionador".

Sinto que "corrompi" a ordem estabelecida, mas dei a ele o mapa para suas próprias verdades. É a eterna saga do Patinho Feio: ele só precisa entender que nasceu cisne em um quintal de patos convictos.
Isso me faz pensar na mania geracional de tratar criança como pet de exibição: "Faz isso para a tia ver!", "Canta para a vovó!". Como se a criança fosse um macaco adestrado em busca de aplausos para validar o ego dos pais. Criança mostra o que quer quando sente empatia, não sob comando. Ela precisa de limites para o caráter, sim, mas precisa de liberdade e afeto para fluir.

A frase da mãe ainda ecoa como um desafio: "Reconheço o erro, mas insisto nele porque é assim que todo mundo faz". E a pergunta que fica, flutuando no ar como um incômodo necessário, é apenas uma: é assim mesmo que deve ser?

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