Carpe diem et Carpe Noctum

Carpe diem et Carpe Noctum


 

Há uma beleza indizível no exercício do Carpe Diem et Carpe Noctum, esse aproveitamento voraz do dia e da noite que só acontece quando a causa é a celebração da vida. Um aniversário, por exemplo, não é apenas uma data; é o palco para o florescer de histórias que, de tão improváveis, tornam-se hilárias. Como explicar o convidado que, em sua pontualidade quase britânica, chega antes do próprio aniversariante?


O destino, sempre afeito ao tragicômico, pregou peças naquele que deveria ser o centro das atenções: boicotado pela tecnologia e vencido por um cansaço fisiológico após uma noite de boemia, o aniversariante despertou quando a própria festa já ganhava corpo. Sob o olhar incrédulo do convidado pontual — que certamente cogitou mil formas de "execução" para o anfitrião faltoso —, o encontro, enfim, começou em pequenos e preciosos fragmentos de alegria.

A jornada até ali foi um capítulo à parte. Entre comidinhas preparadas às pressas pelo carinho materno e um labirinto verde, os amigos perderam-se na busca por um local hermético, quase místico, desconhecido até pelos frequentadores mais assíduos do Ibirapuera. Afinal, quem sabe ao certo onde se escondem as mesas de pingue-pongue? Ouvir os depoimentos sobre o caminho percorrido foi um espetáculo à parte: houve quem caminhasse por horas, quem precisasse de resgate, e quem, por um golpe de sorte, simplesmente chegou. Mas, entre uma bebida e outra, as dificuldades transmutaram-se em riso. O cansaço virou piada e o imprevisto, afeto.



O interesse genuíno desse encontro? Apenas cultivar essa incrível arte que exige suspender o automatismo dos dias. É o convite para escutar mais devagar, parar para sentir e permitir que o sentir ocorra sem pressa. É o luxo de demorar-se nos detalhes, de desarmar o juízo e a opinião pronta, para que a atenção e a delicadeza possam, enfim, abrir nossos olhos e ouvidos. Ali, partilhamos o que nos acontece, lembrando de quem está longe geograficamente, mas colado ao peito pela memória.

Até mesmo um estranho, um vivente que surgiu ao acaso no final da celebração, trouxe consigo uma renovação de energia, elevando a festa a um novo pico de euforia. No fim das contas, até o sono tardio do aniversariante tornou-se o espelho onde todos nos reconhecemos humanos e falíveis. Cultivar a arte do encontro é, em última análise, deixar que cada um expresse sua essência mais nua, sentindo que o diverso e o adverso são as cores que completam a experiência real. 


Pois, afinal, de que valem os números? Para que servem as inúmeras fotos se a alma não habitou o momento? Que sentido há em multidões digitais se não somos capazes de abraçar sequer um décimo dessa rede?


A vida prática não carece de mais informação, mas de mais presença. O encontro real é aquele que nos toca, nos atravessa e nos faz acreditar que a vida só acontece, de fato, quando nos permitimos, simplesmente, estar.

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