Trabalhar com que gosta e o que tenho feito por mim?


Trabalhar com que gosta e o que tenho feito por mim?



Depois de alguns dias de reflexão, consegui organizar estas ideias que nascem do encontro entre a mitologia hindu, minha transição de carreira e uma percepção dolorosa: a de que o amor pelo que se faz não nos imuniza da alienação. Sempre ouvimos o clichê de que, ao trabalhar com o que amamos, não trabalharemos um único dia, mas essa é uma ilusão perigosa. O "gostar" carrega o peso de uma alta expectativa e, inevitavelmente, abre as portas para uma frustração profunda quando o real da profissão se impõe. Foi essa jornada que me levou a compreender, de forma mais madura, o mito de Hanuman.

Hanuman, o deus-macaco, foi essencial para resgatar a princesa Sita, mas, embora possuísse força para resolver tudo sozinho, ele agiu como colaborador de Rama. Ele cumpriu sua parte na medida do possível, sem se perder na onipotência. Essa imagem me deu a coragem necessária para deixar a área financeira pelo Yoga, buscando uma liberdade que, inicialmente, julguei estar no simples prazer da atividade. No entanto, caí na armadilha da romantização. Acreditava que, por ser Yoga, o cotidiano seria um fluxo eterno de paz, ignorando o que Christophe Dejours tão bem pontua: o trabalho é, essencialmente, o confronto com o real, com aquilo que falha e que resiste aos nossos desejos de controle.

Mesmo no Yoga, percebi-me repetindo a lógica exaustiva do sistema financeiro. Tornei-me workaholic, ministrando inúmeras aulas, mas sem tempo para minha própria prática ou para uma refeição digna. Foi quando a teoria de Dejours se materializou na minha fadiga: o trabalho pode ser um espaço de realização da subjetividade, mas, se nos alienamos nas exigências de produtividade — sob o manto de que "fazemos o que amamos" —, ele se torna puro sofrimento. Eu estava alienada de mim mesma, usando a paixão como justificativa para ignorar meus limites. Se o Yoga prega a união, por que eu estava tão fragmentada? Por que eu apontava aos alunos a necessidade de equilíbrio enquanto negligenciava o meu próprio sono e silêncio?

A atitude mais importante que tomei foi aposentar a "salvadora do mundo". Entendi que a frustração nasce quando tentamos preencher com o trabalho uma lacuna que é da ordem da vida pessoal. Existe um hiato necessário entre prestar ajuda e viver a vida do outro, e reconhecer isso é o que nos protege da exaustão. Assim como Hanuman, despertei para a sensatez de que o "gostar" não elimina o esforço e que a ajuda precisa de medida. Hoje, só assumo o que verdadeiramente posso carregar, comunicando com clareza os meus "nãos". No fim, o segredo não é trabalhar com o que se ama para fugir do peso do trabalho, mas sim trabalhar com consciência para não se perder na alienação, buscando a harmonia possível entre o que fazemos e quem realmente somos.

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