Só queria uma caneta preta




Só queria uma caneta preta


Ontem, entrei naquela loja movida pela urgência do mundo utilitário: um mouse para a mão cansada e uma caneta preta para o protocolo dos dias. Eu buscava o funcional, o objeto que se apaga no uso, o traço que apenas cumpre o seu dever. Mas, diante da prateleira, o pragmatismo desmoronou. Entre o preto do contrato e o arco-íris do desejo, a criança que um dia desafiou o cinza dos professores despertou com um grito de cores.

A tensão entre o que precisamos para sobreviver e o que desejamos para viver se dissolveu no instante em que recusei a sobriedade. Lembrei-me de que os adultos, em sua pressa cega, caminham sobre tapetes de primavera sem jamais notar as pétalas sob os pés, confinados à ditadura do azul e do preto. Eu, que outrora preferi a advertência à monotonia, escolhi novamente a rebeldia do matiz. As canetas coloridas não eram apenas ferramentas de escrita, mas instrumentos de uma antiga magia onde o pensamento flui como a natureza e a imaginação reclama seu direito de voar.

O mouse, peça fria de plástico e silício, cumpriu sua função técnica de transcrever estas palavras, mas foi o sopro das cores que lhes deu alma. A utilidade se curvou ao devaneio: o que era para ser apenas um registro burocrático tornou-se um manifesto primaveril, provando que a existência não se sustenta apenas com o que é prático. Habito agora esse intervalo sagrado onde o trabalho é finalmente transbordado pelo sonho.

Resta saber, caro leitor, entre as urgências que o consomem e as cores que o chamam: quantas vezes você tem deixado sua vida ser escrita apenas em preto e azul, enquanto o seu próprio tapete de primavera aguarda para ser notado?

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