Um conto de Natal



Um conto de Natal


O ano era 1983. Helena, uma menina de apenas seis anos, vivia o encerramento de seu ano pré-primário. Ela possuía características singulares, mas quem, naquele tempo, se daria ao trabalho de notar? Helena dialogava com formigas e borboletas; parecia manter conversas profundas e longas com um amigo invisível, habitando um mundo só seu.

Era uma criança quieta, observadora e nitidamente medrosa, carente de afetos. Como tantas crianças, possuía uma sinceridade cortante que, inevitavelmente, incomodava os "adultos" — seres repletos de certezas, conceitos e preconceitos enraizados.

Helena era constantemente hostilizada por aqueles que deveriam protegê-la: sua própria família. As verdades que ela proferia soavam monstruosas para aquele universo hipócrita e rigidamente cristão. Naquele ambiente, trapacear, mentir e tirar vantagem do próximo eram comportamentos tolerados, mas a honestidade de uma criança, não.
O uso da força silenciou Helena. Ela aprendeu a contrair-se em vez de expandir-se. Sem espaço para expressão, o medo tornou-se seu companheiro fiel. A contração afetou sua alma de tal forma que qualquer contato — fosse um elogio ou um simples convite para conversar — desaguava em pranto. Um choro que nunca se calava; um eco do "cala a boca" imposto pelo ambiente hostil em que vivia.

Apesar desse universo de repressão, Helena conseguia comunicar-se bem com seus pares. No pré-primário, conversava com todos os colegas, sem distinções. Essa sociabilidade, contudo, desagradava a "professorinha" Sônia. Mulher de gênio forte e disciplina férrea, Sônia não hesitava em punir a menor irritação com puxões de orelha — às vezes, dependendo do humor, em ambas simultaneamente. Eram resquícios de uma cultura de ditadura e controle, lembrando as cenas do filme do Pink Floyd, onde crianças eram subjugadas por jogos de poder.

A mãe de Helena era jovem e festiva, com um mundo inteiro a descobrir, apesar da filha pequena. Seu humor era mais inconstante que as fases da lua. Tratava a menina com hostilidade, como se Helena fosse um fardo pesado em sua existência. Teria Helena nascido em um momento inoportuno? Tudo indicava que ela não fora bem-vinda.

Essas vidas colidiram de forma mais intensa quando Sônia, imbuída de um súbito "espírito natalino", resolveu organizar um coral. A "general" convocou outras salas, reunindo cerca de 50 crianças. Ensaio após ensaio, a brincadeira tornou-se rigorosa. Com a proximidade da apresentação, os treinos intensificaram-se, exigindo que os alunos permanecessem mais tempo na instituição.
Enquanto alguns pais transbordavam orgulho, a mãe de Helena reagia com inconformismo. Os custos com o figurino a enfureciam.

— Maldição! Só querem meu dinheiro! — repetia incessantemente.

A professora Sônia, exigente por natureza e ainda mais consigo mesma, amedrontou-se com a magnitude da responsabilidade que criara. Ainda assim, manteve a pose e conduziu o coral até o desfecho. Ficou combinado que, no dia da apresentação, as crianças chegariam com uma hora de antecedência para o ensaio final.

Naturalmente, o plano de Sônia colidiu com a realidade de Helena. Na noite anterior, sua mãe saiu com amigos e bebeu além da conta. No dia seguinte, mergulhada na ressaca, perdeu o horário. Helena, em desespero, tentava acordá-la, recebendo em troca apenas injúrias proferidas por uma voz ainda embriagada.

Sozinha em sua angústia, a pequena sustentou a situação. Precisava cumprir o compromisso com a professora. Para ela, o lema "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço" era uma regra de sobrevivência. O caminho até o coral foi marcado pelas ofensas da mãe, pelos cadarços desamarrados que ela não conseguia prender e pela ansiedade de chegar. Helena desejava estar com os amigos; para ela, as férias significavam o retorno ao "inferno" doméstico. A escola era seu único refúgio de acolhimento.

Chegaram com vinte e cinco minutos de atraso. A mãe exibia um semblante amargo e, mesmo sob os olhares da plateia, não cessava os insultos. Escondeu-se em um lugar discreto, com um ar de total desdém. Helena, por sua vez, foi imediatamente culpabilizada pelo atraso. Os olhares de reprovação a cercavam: "Que bonito, hein? Isso são horas?".

A professora lançou-lhe um olhar fuzilante e ordenou:
— Vamos começar.

Helena ocupou seu lugar na frente do coral, conforme ensaiado. Cantou cada nota sem permitir que uma única lágrima escapasse. A letra entoada dizia:
Quero ver você não chorar;
Não olhar pra trás;
Nem se arrepender do que faz.
Quero ver o Amor vencer;
Mas se a dor nascer;
Você resistir e sorrir.

Missão cumprida. Helena, a menina "chorona", manteve o autocontrole. Sustentou a apresentação com uma força admirável. Enquanto pais emocionados aplaudiam o espetáculo das crianças, a professora Sônia não perdoou a falha. Ao final, chamou Helena de canto e disparou:
— Onde já se viu? Você já é uma moça. Não pode chegar atrasada e deixar os amigos esperando. Isso é falta de consideração!

Helena abaixou a cabeça e engoliu o choro. Precisava aproveitar os últimos instantes daquele "paraíso" antes de ser arrastada de volta à hostilidade das férias. Quando a professora tentou repreender a mãe, ouviu como resposta um ríspido:
— Vai se fu...

Assim, encerra-se este conto de Natal com uma provocação ao leitor: você tem mantido o seu autocontrole? Uma garotinha de seis anos aprendeu, da forma mais dura, que embora o meio exerça pressão, a escolha de transcender ainda reside em cada um de nós.



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