O Dia em que uma Aluna que Ainda Não Nasceu me Cobrou a Aula

O Dia em que uma Aluna que Ainda Não Nasceu me Cobrou a Aula

Queridos leitores, algo finalmente rompeu a casca. Confesso que havia muito material maturando no silêncio do que chamo de minha "chocadeira" particular. Peço paciência pela demora, mas é que tenho tido discussões sérias e negociações profundas com o Senhor do Tempo sobre o momento certo de cada revelação.

Tudo começou em meados de 2007. Naquela época, o destino passou a bater com insistência à minha porta através do ventre de mulheres grávidas. Elas me procuravam para aulas de Yôga, mas, para minha própria surpresa, eu me sentia despida de qualquer segurança. A verdade nua e crua? Eu sentia um tremendo pavor toda vez que encontrava uma gestante. Era um medo irracional que ignorava o fato de eu ter tido todo o preparo técnico necessário no meu curso de formação.

Hoje, com o olhar mais maduro, compreendo que uma força maior cumpria seu fluxo. Não havia acasos. Quanto mais eu as dispensava por medo, mais elas vinham atrás de mim. Vi-me sem saída: ou eu sucumbia ao pavor, ou enfrentava a situação. Foi então que decidi expor minhas angústias à minha grande mestra, Nicole Witek. Com sua postura prática, objetiva e direta, ela foi o suporte que me faltava. Nicole compartilhou comigo seus próprios processos, com conhecimento de causa e uma sensibilidade que atravessou minhas defesas.

Ao me entregar ao fluxo, a vida testou minha nova coragem. Quase da noite para o dia, eu tinha nove gestantes estrangeiras sob meus cuidados, incluindo uma gravidez de alto risco. O trabalho exigia uma eficiência cirúrgica e um foco absoluto; a responsabilidade era monumental. Engana-se quem pensa que dar aulas de Yôga é um eterno estado de paz sem estresse. Não fazem ideia das tempestades e das sombras que enfrentamos dentro de uma sala de aula.

Contudo, essa sucessão de eventos me levou a uma cura inesperada. Descobri que, inconscientemente, eu estava aprisionada ao pânico que minha própria mãe sentiu enquanto me gestava. Ao acompanhar tantas mulheres — algumas com dificuldade em gerar, outras com medo da maternidade — eu estava, na verdade, resolvendo meus próprios processos. Meus pavores foram eliminados através da vivência do outro.

Dentre esses encontros, um se destacou pelo brilho do planejamento e da harmonia. Era uma mulher de 30 anos que, em perfeita sintonia com o marido, decidiu trazer uma vida ao mundo. Ela era esportista, vinha do mundo corporativo e das vendas, e nunca havia praticado Yôga até o final do terceiro trimestre, quando nossos caminhos se cruzaram.

Durante sete meses, mergulhamos em filosofia, técnicas e reflexões. Em nossas aulas, introduzi o som da Kalimba. Eu ouvira dizer que mães africanas tocavam esse instrumento para conectar o bebê ao Divino. Confesso que duvidei no início, mas o teste revelou o extraordinário: a Kalimba criava conexões incríveis. Eu assistia aos movimentos na barriga e minha imaginação voava, tentando adivinhar se aquele volume era um pezinho ou a cabecinha. Ali, entendi por que tantas gestantes se sentem um pouco Deus; o poder é, de fato, espetacular.

Aquele bebê era um praticante dedicado e sapeca. Agitava-se com a minha voz e chegou a fazer um mudrá — um gesto yogui com as mãos — durante um ultrassom. Enquanto isso, a gestante passava por uma transformação interna profunda. Ela desconstruiu seus vícios de atleta para praticar com o coração, aprendendo a gerir seus limites e a enfrentar pressões psicológicas sutis no trabalho, onde tentavam fazê-la crer que a maternidade tirava seu propósito. Ela se empoderou, e sua vitória ressoou em mim.

O ápice dessa jornada aconteceu no penúltimo dia de gestação. Preparei um presente de despedida: uma marionete de dedos com uma embalagem que trazia a mãe de Gopala — o menino divino e travesso. Achei apropriado para aquele bebê que vivia dando piruetas e que demorara a se posicionar corretamente.

Na manhã seguinte, antes da aula final, vivi algo inexplicável. Não sei se foi sonho ou miragem, mas vi uma garotinha de cabelos negros e olhos azuis. Com seus dedinhos finos e pontudos, ela me cutucou e perguntou com uma vozinha aguda: "Ei! Você não vai dar aula para minha mãe?". Ela olhou para o presente e deu uma gargalhada cristalina. Eu entrei em choque. Ver coisas já era demais para mim!

Apesar do susto, dei a aula e contei a história para a futura mãe, que riu acreditando que o humor do bebê seria exatamente aquele. O parto, após 12 horas de tentativa para ser normal, acabou em uma cesariana bem resolvida e aceita. O tempo passou e o contato diminuiu, como costuma acontecer na correria da nova maternidade.

Um ano depois, recebi um telefonema. Era ela, a mãe da Aurora, radiante por estar grávida novamente. Mas o que me tirou o fôlego foi quando ela descreveu a primeira filha: uma menina linda, de cabelos negros e olhos azuis, exatamente como na minha visão. Sim, meus caros leitores, a pequena Aurora é, de fato, uma danadinha.

E agora, eu pergunto a você: já teve a sensação de conhecer alguém que ainda não nasceu?





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