A Criança quando era criança e uma crítica a mais

A Criança quando era criança e uma crítica a mais


Queridos Leitores!

"O estudo da anatomia me tomou o tempo, e este texto — planejado para o Dia das Crianças — acabou guardado. Antes tarde do que nunca, deixo aqui esta reflexão, que começa com os versos de Peter Handke em 'Canção da Infância':"


Quando uma criança era uma criança
Ela andava com seus braços balançando,
queria o córrego pra ser um rio,
o rio pra ser uma torrente,
e uma poça pra ser o mar.

Quando uma criança era uma criança,
não sabia que era uma criança,
tudo era tão cheio de espírito,
e todas as almas eram uma só.

Quando a criança era uma criança
não tinha opinião a respeito de nada,
não tinha hábitos
e sentava-se sempre de pernas cruzadas,
descansando de uma corrida
e tinha o cabelo lambido
e não fazia poses na hora da fotografia.



Quando a criança era uma criança
era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo
começou, e onde é que o espaço termina?
A vida debaixo do sol não é só um sonho?
Aquilo que eu vejo e escuto e cheiro
não é só uma ilusão de um mundo de antes do mundo?
Considerando-se o mal e as pessoas.
A maldade realmente existe?
Como pode aquilo que sou, quem eu sou,
não ter existido antes que eu viesse a ser,
e que algum dia, eu, quem eu sou,
não serei mais quem eu sou?

Quando uma criança era uma criança,
Mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz,
e couve-flor cozida,
e comia tudo isto não somente porque precisava comer.

Quando uma criança era uma criança,
Uma vez acordou numa cama estranha,
e agora faz isso de novo e de novo.
Muitas pessoas, então, pareciam lindas
e agora só algumas parecem, com alguma sorte.
Visualizava uma clara imagem do Paraíso,
e agora no máximo consegue só imaginá-lo,
não podia conceber o vazio absoluto,
que hoje estremece no seu pensamento.

Quando uma criança era uma criança,
brincava com entusiasmo,
e agora tem tanta excitação como tinha,
porém só quando pensa em trabalho.

Quando uma criança era uma criança,
Era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão,
E agora é a mesma coisa.

Quando uma criança era criança,
amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem,
e também fazem agora,
Avelãs frescas machucavam sua língua,
parecido com o que fazem agora,
tinha, em cada cume de montanha,
a busca por uma montanha ainda mais alta,e em cada cidade,
a busca por uma cidade ainda maior,
e ainda é assim,
alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvores
como, com algum orgulho, ainda consegue fazer hoje,
tinha uma timidez na frente de estranhos,
como ainda tem.
Esperava a primeira neve,
Como ainda espera até agora.

Quando a criança era criança,
Arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore,
E ela ainda está lá, chacoalhando, até hoje.

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Este poema diz tanto que, como "adulta", eu diria: nada tenho a acrescentar. Mas, como uma criança atrevida, ouso ir além.

Como pode uma criança tirar da outra o direito de simplesmente ser? Ainda que não se espere pela neve, como sugere a canção: quem foi que apagou a luz? Ninguém avisou que crianças têm medo do escuro?

Moldada por valores sociais e familiares, a criança torna-se um "adulto precoce". Aprende a caminhar nas trevas e aceita que um cego conduza o outro. Aprende a respeitar os mais velhos, ainda que o "velho" seja um cafajeste; ouve que o respeito consiste em pedir a bênção, mesmo que seja para um abusador.

Ouve que "antes as coisas eram melhores", embora a corrupção política seja um eco antigo. Aprende a moldar o mundo sob uma ótica egoísta, subjugando os anseios de quem sequer consegue pedir ajuda. Cedo compreende que, para declarar o imposto de renda, é preciso um contador astuto — afinal, o mundo é dos espertos.

Aprende que ser lesado é sinal de burrice. Que o medo e a agressividade são "saudáveis", mesmo que custem sorrisos e o hábito de desejar bom dia. A educação só é válida quando convém; caso contrário, a má educação é sempre culpa do Outro.

Aprende que a melhor profissão é a que traz dinheiro, mesmo que custe a própria vida. Que sabedoria é acumular informações não mastigadas, repetindo currículos e grades. Valoriza-se o marketing, a subjetividade de prateleira e a estatística fria em vez do saber acadêmico. E, se a depressão bater, basta o último best-seller de autoajuda — só não esqueça o Rivotril antes da noite de autógrafos.

Tudo isso contrai a alma. O mais assustador é quando a criança perde a capacidade de se admirar. É esse o "apagar das luzes" a que me refiro. Mergulhos nas trevas são inevitáveis e até necessários para adquirirmos recursos, mas não podem ser o fim.

Fui pessimista nestes acréscimos? Talvez. Mazelas humanas existem desde que o mundo é mundo. Mas o que fazer para viver com tudo isso? A resposta mora no coração. Ajuda religiosa ou filosófica é bem-vinda, mas nunca deve ser uma muleta final.

Eu optei por ser feliz. Para isso, o resgate da minha criança tornou-se vital. Parei de remoer o passado e passei a confrontar o que me impedia de avançar. Curar feridas e acolher a criança que se deslumbra com o universo é um ato de resistência.

Olhar o pôr do sol e ainda se encantar é um ganho. Perder-se nas estrelas é reconhecer-se. Dormir com a sensação de que, apesar dos obstáculos, tudo está no seu devido lugar... isso é sabedoria. Ser feliz é viver essa beleza diversa, além da nossa vã compreensão. É preencher o presente com magia. E você, cara criança, ainda consegue se admirar?

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