O Labirinto das Cordialidades Áridas
O Labirinto das Cordialidades Áridas
Queridos Leitores,
Após um mergulho no silêncio, retorno inspirada pelas pincéis de Remedios Varo. Mais precisamente por sua obra "Esses lugares e o condutor", que deixo aqui apenas como um portal visual, sem comentários, para que vocês habitem suas próprias interpretações.
Ultimamente, a análise tem provocado em mim um refinamento do olhar. Geralmente me reconheço na cordialidade; cumprimento quem passa, busco o olho no olho sem distinção. Acreditava que esse gesto era uma contribuição para a harmonia, uma nota suave na sinfonia caótica da cidade. No entanto, no Bairro do Paraíso, onde frequento um condomínio de silêncios hostis, minha cortesia encontrou um eco inesperado e distorcido.
Um novo porteiro, recém-chegado ao deserto de afetos dos moradores, viciou-se no meu cumprimento. Entrou no "automático". Eu nem sequer perguntava "como vai?", e ele já disparava agradecimentos por uma preocupação que eu não havia manifestado. Em seguida, tentou me oferecer banquetes de certezas: um processo "catequizante", rico em verdades absolutas e conselhos não solicitados, úteis apenas para a minha lata de lixo.
Mergulhado na margem de si mesmo, ele não escutava o Outro; apenas projetava em mim a plateia para o seu monólogo.
O clímax desse desencontro foi um convite para comer pizza. O choque foi físico. Uma raiva surda me atravessou — o desejo de mandá-lo tomar "suco de xuxu", essa metáfora da insipidez. Mas a cultura da cordialidade feminina é uma jaula: para não ser grosseira, entreguei meu número de telefone. Um erro psicomágico. Eu lhe dei a chave de um portal que deveria permanecer trancado.
No domingo, enquanto eu mergulhava na densidade simbólica de Alejandro Jodorowsky, o telefone tocou. Do outro lado, o abismo se escancarou. Ele não perguntou; ele afirmou: "Aposto que você está enrolada num cobertor no sofá assistindo TV".
Ali, a autorização masculina se revelou em sua forma mais pura: a presunção. Ele tentou me reduzir a um arquétipo de passividade doméstica, uma imagem minúscula que cabia em sua zona de conforto. Mal sabia ele que eu habitava o universo de Jodorowsky, onde o Ser essencial não aceita clichês. Ele discursava sobre sua "resistência tecnológica" e sua paixão pela "sétima arte", construindo um altar para o próprio ego, enquanto eu sentia a fadiga dos diálogos que não se tocam.
Ele era o monólogo; eu era o silêncio interrompido.
Tive que executar o corte. Um "falow, tchau" seco, ainda aquém da minha necessidade de clareza. Agora, resta-me o real. Preciso retornar àquele portal e realizar uma cirurgia simbólica: deixar claro onde estou. Devolver a ele a fantasia que ele criou, para que eu possa retomar meu território de estudo.
As pessoas andam carentes e demandam no Outro o preenchimento de seus próprios vazios. Uma pergunta educada, na mente de quem tem fome de ser visto, torna-se um banquete imaginário. Mas o encontro real só acontece quando aceitamos que o outro tem o direito de não nos corresponder.
E você, caro leitor? Sustenta o peso do seu próprio olhar ou permite que o outro desenhe o seu destino no mapa das carências dele? Você deixa claro onde está ou onde gostaria de estar na vida do Outro?


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