Respeito é bom e eu gosto no Armazém Santa Filomena
Respeito é bom e eu gosto no Armazém Santa Filomena
Minha inspiração para este post, após um verão que parecia não ter fim, surgiu de uma incursão à Zona Cerealista. Mas, antes de narrar o caos, preciso introduzir uma figura: Santa Filomena.
Diz a crença que Filomena, princesa grega de apenas 13 anos, foi prometida ao Imperador Diocleciano em troca de um acordo de paz. Ao recusar o matrimônio por sua devoção a Cristo, a jovem selou seu destino. O tirano, ferido em seu orgulho, submeteu-a a um inventário de horrores: cárcere, flagelos, flechas em chamas e o lançamento ao Rio Tibre com uma âncora ao pescoço. Milagrosamente curada de cada suplício, Filomena só encontrou o fim pela decapitação. A pacificação, no caso dela, era uma armadilha que ela não aceitou pagar.
Corta para a sexta-feira pós-feriado. O cenário? O Armazém Santa Filomena.
Cheguei às 15h30. A senha indicava 50 pessoas à minha frente. Sob um calor de rachar, o ambiente era uma simulação do "Inferno" de Dante: corpos se esbarrando em poucos centímetros quadrados, caixas anunciando números, o balé frenético de carrinhos e o desespero de quem desistia. Sem opção, com a despensa vazia, apliquei o ditado: já que estava no inferno, decidi abraçar o capeta.
O mormaço era tal que o delírio parecia inevitável. Estaria eu na Divina Comédia ou apenas no Rio de Janeiro? Meus devaneios, porém, foram interrompidos por um estalo de realidade no corredor ao lado. Um garoto de 12 anos esbarrou em um senhor de 60. O "distinto" cavalheiro explodiu em palavras de ordem sobre "respeito aos mais velhos", bradadas aos quatro bafos do armazém. Não satisfeito, desferiu um tapa no rosto do menino.
— Esbarrei sem querer, o senhor está bem? — respondeu o garoto. — Não precisava bater na minha cara.
A plateia soltou um "oh" coletivo. A mãe, de outro corredor, convocou o marido: "Nosso filho tem pai e mãe!". O menino, com lágrimas nos olhos, repetiu o pedido de desculpas, apenas para ser premiado com um segundo tapa. O pai, tentando uma pacificação diplomática, sugeriu: "Que tal conversarmos lá fora? Meu filho é bem educado". Do lado de dentro, vimos um abraço ensaiado e aplausos efêmeros da multidão. Uma cena nada emocionante para quem sabe ler as entrelinhas.
Enquanto esperava, distraí-me com as novidades veganas: hambúrguer de lentilha apimentada. Sorri ironicamente; os humores ali já estavam apimentados o suficiente para qualquer leguminosa. Quando finalmente chegou minha vez, tive de ceder o lugar ao pai do garoto. Ele retornara da delegacia: o filho fora agredido novamente no lado de fora. A tentativa de "pacificação" foi recebida com mais violência. O Diocleciano do armazém não queria diálogo.
Como dizia uma antiga chefe: "Elaine, cafajeste e mau-caráter também envelhecem".
Cedi minha vez e saí para o calor sufocante da calçada. O sol de um verão interminável batia no rosto como o tapa que o menino levara. Olhei para trás e vi a placa: Armazém Santa Filomena. Sorri com amargura. No teatro do cotidiano, a santidade é um detalhe ignorado, a pacificação é uma utopia de bêbado e o inferno... bem, o inferno é o outro, com uma senha na mão e um ódio gratuito no coração.
E você, caro leitor? Na sua próxima ida às compras, vai levar a paz para casa ou apenas o hambúrguer de lentilha?


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