O homem insistente



O homem insistente

Aquele que pergunta, verdadeiramente escuta? Aquele que deseja, permite o florescer do desejo alheio?

A noite era um manto cravejado de diamantes, regido por uma dama de prata que vertia seu brilho gélido sobre o firmamento. No ar, o perfume do jasmim serpenteava como um hálito entorpecente sobre o olfato dos amantes. Sob a cadência vulgar de ritmos andinos, a festa pulsava entre bebidas e a promessa dourada dos pastéis de milho, combustíveis de um riso frouxo que, embora ruidoso, jamais encurtava as distâncias reais. Na nova etiqueta das celebrações, os convidados autopromoviam-se em palcos invisíveis, poupando o anfitrião da árdua tarefa de apresentá-los.

O dono da casa era um homem de estatura média e presença densa. Suas bochechas, de um rosa lustroso, contrastavam com o abismo da boca profunda que acentuava a força da mandíbula. Seus olhos eram faróis voltados para dentro, claros e distantes, e de sua barba emanava um leve odor de abandono — o mofo de quem guarda o rosto em toalhas esquecidas pelo sol. Como um sacerdote do excesso, oferecia comida incessantemente; sua meta era o fluxo contínuo de copos e pratos cheios. Não era raro avistá-lo com uma bandeja de pastéis em punho, ofertando-os com uma generosidade que beirava a imposição; diante de qualquer recusa ou aceitação alheia, ele premiava a si mesmo, devorando o próprio banquete entre gemidos de aprovação.

A estética da residência era um museu de intenções mortas: uma máquina de escrever antiga repousava sobre um tambor — objetos puramente decorativos, mudos ao som e à letra. O sofá, esquivo, parecia repelir qualquer tentativa de descanso. Nas paredes, pôsteres de filmes cult, com destaque para Domicílio Conjugal, de Truffaut, observavam a cena. Na cozinha, a geologia das louças sujas e os armários abarrotados denunciavam sua natureza acumuladora, enquanto, no piso inferior, o fumo dos charutos desenhava as estratégias silenciosas de uma mesa de pôquer.

Em outro ponto da cidade, Penélope e Lucienne buscavam apenas a leveza de uma noite sem amarras. Contudo, ao cruzarem o umbral da festa, encontraram um deserto de alteridade: homens dominavam o ambiente, ocupando não apenas o recinto, mas sequestrando o espaço da fala. Sentiram-se como "Danielas na cova dos leões"; concluir um raciocínio era impossível, pois eles as contestavam por puro hábito. Penélope experimentou o reverso de Alice no País das Maravilhas: enquanto a personagem crescia até não caber na casa, ela sentia seu corpo encolher sob a pressão daquele cerceamento.

Num esforço para romper a asfixia, ela arriscou um tom filosófico, sentenciando que o diálogo estava morto, reduzido a um automatismo de conteúdos replicados sem alma. Um silêncio de lápide selou o ambiente, interrompido apenas por olhares perplexos que logo a rotularam como adepta de misticismos orientais. Exausta, Penélope tentou uma saída "à francesa", mas o homem insistente (o anfitrião) barrou-lhe o curso. Como uma maré pesada, ele tentou roubar-lhe um beijo, balbuciando ao pé do ouvido frases viscosas, desarticuladas pelo álcool, que ela não pôde — nem quis — decifrar. Ele insistiu, mas ela se foi.

A redenção, contudo, é uma estrada que exige a renúncia do ego, e ele não estava pronto. Dias depois, sob o pretexto de um pedido de desculpas, encontrou-se com Penélope em um bar no centro da cidade. A conversa não fluía; o homem, agora despido do manto de anfitrião, discorria sobre antigos amores, cuja centralidade eram sempre "mulheres loucas" — um inventário de mágoas usado para justificar o próprio vazio.

O clímax atingiu uma temperatura sombria quando Penélope retirou-se ao toilette. Na penumbra da ausência dela, ele despejou um segredo químico na bebida da mulher. Ao retornar, Penélope percebeu a mutação: os olhos dele agora vibravam com uma expectativa sinistra. Ela viu a transparência do abismo em seu olhar. Desconcertado pela nitidez dela, ele pediu licença para também se retirar. No breve vácuo, Penélope trocou os copos.

Quando ele voltou e bebeu, a língua tornou-se um fardo de chumbo, tão pesada quanto as palavras que esbanjaram obscenidades e uma educação pornográfica. No colapso do seu plano, ele apelou: clamou querer ser o amigo, o cara, o pai, o irmão. Penélope levantou-se com a dignidade das estátuas.

— Você poderia ao menos ser original — sentenciou. — Detesto gente sem personalidade.

Jogou alguns reais na mesa e partiu para a noite. Movido por uma obsessão que beirava o delírio gótico, ele rastejou em seu encalço e, no meio-fio, ajoelhou-se como um pecador suplicante. Foi então que, das sombras da avenida, surgiu um bólido de aço em alta velocidade. 

"[...] O choque foi um acorde seco de ossos e metal. Penélope não olhou para trás. Enquanto o rastro de sangue se misturava ao asfalto, ela caminhou com passos firmes até ser devorada pela neblina que subia da avenida, desaparecendo como um fantasma que finalmente encontrou o seu caminho, deixando o homem insistente entregue ao silêncio fúnebre de uma cidade que não perdoa os que se recusam a ouvir."


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