Por andavas cri(a)tividade?
Como se banhada por um afrodisíaco invisível, Madeleine despertou pulsando energia, ignorando a garoa fina e a umidade que abraçavam a manhã. Caminhou até uma cafeteria escondida numa rua pitoresca, um refúgio de casas antigas, portões baixos e jardins que oscilavam entre o suntuoso e o tropical modesto, pontuados por chafarizes sussurrantes. Era um oásis arborizado em plena metrópole, um oásis de transe onde o canto dos pássaros sobrepunha-se ao caos. Para Madeleine, caminhar ali era evocar nostalgias incertas, um retorno aos tempos de colégio, quando o trecho era ousadamente apelidado de "Rua do Pecado". Escolheu uma mesa externa. A garoa cessara, deixando o ar agradavelmente fresco. Acomodou-se perto de um canteiro de gerânios, cujo aroma se fundia ao cheiro de café torrado e bolo fresco. Um pão de queijo leve e poroso denunciava, ao ser partido, o queijo mineiro em fumegantes fios. A vitrine era uma obra de arte, uma apoteose de doces artesanais que arrancava suspiros e exclamações dos passantes. O ambiente, pequeno e aconchegante, evocava um charme vintage, um convite irresistível ao pecado da gula. Ali, naquele microcosmo, Madeleine observava. Havia os transeuntes e os "habitués", aqueles que, como ela, buscavam mais do que cafeína. Observou a nova garçonete, cujo decote sorria mais do que seu rosto e cuja saia desenhava pernas que atraíam olhares, inclusive o de reprovação de uma senhora recatada sentada ao canto. A garçonete, alheia, sorria em uníssono com sua própria ousadia. Um advogado, impressionado com tal faceirice, agiu rápido: cartão no bolso do avental, generosa gorjeta e uma piscadela cúmplice. No balcão, uma figura familiar de longa data: o barista sisudo, mestre em caretas e no ofício do café, eficiente ao extremo, incômodo para quem se apega à própria autoimportância. "Afinal, você sabe com quem está falando?", pareciam sussurrar os clientes afetados diante de sua indiferença. Madeleine acenou para o Sr. Gastão, figura distinta e reservada, fiel aos ternos cinzas que sublinhavam seus anos de vida. Homem de poucas palavras, mas de opiniões agudas. "Quando os economistas farão, de fato, o papel a ser feito neste país?", provocava ele, vez ou outra, após devorar o caderno de economia. De repente, um homem discreto e charmoso cruzou o olhar de Madeleine. O rubor foi imediato, a insegurança também. Teria ele flagrado seus monólogos internos? Estaria desgrenhada, sem perfume, desarmônica? Tentou arrumar o cabelo, conformando-se que, ao menos, as roupas dialogavam entre si. Trocaram olhares intensos; ele chegou a sorrir, mas ela, estranhamente contida, não retribuiu. Entre um olhar e outro, Madeleine anotava furiosamente, estimulada. Quando os olhares cessaram, mergulhou no caderno a ponto de esquecer o mundo. Ao buscar o charmoso novamente, encontrou, porém, outro par de olhos: um homem desagradável, de sorriso excessivo e uma brega camisa de listras vermelhas e brancas que nada favorecia. O infortúnio da proximidade. Aquele encontro de olhares foi um banho de desânimo. Procurou o charmoso de óculos estilosos, compenetrado em sua leitura. Fantasiou aproximar-se, criar um assunto, sentar-se à sua mesa. A postura dele — elegante, firme e leve, até ao pousar a xícara — a encantava. Camisa branca, jeans surrado, tênis esporte fino. Um semblante maduro e jovial. Sem novos cruzamentos de olhares, Madeleine canalizou a excitação para a escrita. O musa a inspirou. Escreveu com um entusiasmo há muito esquecido. Ao quase finalizar, buscou o charmoso mais uma vez. Em vão. Apenas a louça retirada indicava sua partida. Em contrapartida, o homem da camisa brega, ali perto, realizava um pedido em alto e bom som, quase performático. Madeleine voltou ao trabalho, mas foi interrompida por um sentimento súbito: uma gota de diamante, brilhou ao lado do seu pires, anunciando alvissareiras novidades. Após viver uma epopeia quase dantesca, talvez ali, naquela cafeteria, o gosto pela escrita estivesse retornando. Reconheceu seu velho caderno, o pequeno companheiro negligenciado que ali recebera novas anotações. Folheou-o, desfez as orelhas das páginas, leu atenciosamente. As anotações pareciam, por vezes, uma chuva de mediocridades disfarçadas de ideias. Assumiu suas responsabilidades. Lembrou-se da amiga: "Escrever? Mas vai que dá certo, né? Como vai suportar?" Nesse instante, Madeleine olhou para cima. Um pássaro cortava o céu, enquanto nuvens se dissipavam, revelando um pedaço de azul — Por onde andavas, cri(a)tividade? — sussurrou para si mesma, sentindo, enfim, o reencontro.


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