Se queres viver mais, é preciso...

Se queres viver mais, é preciso...



   foto de dona Olivia 

Afinal, qual seria a fórmula de um bem viver? Existiria uma receita, um roteiro, um mapa para o tesouro escondido no cotidiano? Mais que nada, um samba de uma nota só — mas saia da frente, que o coração quer sambar. Através deste breve "continho", mergulhamos na por...da vida para decifrar o que as horas, em sua pressa, costumam calar. Boa leitura.

Era um dia de outono, um desses dias de humor incerto. O sol hesitava: brilharia com o ouro da manhã ou se esconderia sob o véu tímido das nuvens? O céu buscava aquele azul profundo, enquanto o ar oscilava entre a carícia morna e a sombra súbita. No balanço desse clima indeciso, ela surgiu na porta do café como uma aparição: uma senhora de pequena estatura, mas de um rosto que irradiava uma serenidade fulgurante.

Com a calma de quem habita o próprio tempo, ela observou o movimento interno. Nada de extraordinário acontecia, apenas o agitar invisível de moléculas carregadas pela euforia de um grupo ao fundo. Seus olhos, porém, buscaram o olhar de Koré — uma mulher que bebia palavras de um celular com um entusiasmo inquieto, enquanto vigiava o mundo lá fora. Aquele encontro de pupilas foi o convite mudo. A senhora entrou, e Koré, movida por um instinto de anfitriã, cedeu-lhe o lugar ao lado.

O silêncio instalou-se, mas não era vazio. Era denso, habitado. Koré ensaiou uma preocupação protocolar sobre como atendê-la, mas logo percebeu a tolice do gesto: aquela mulher parecia uma velha conhecida da alma. Sua presença era capaz de desarmar as carrancas mais rígidas do recinto, transmutando a atmosfera do café. Como diria Mia Couto, ali o silêncio era tanto quanto palavra. Entre o desejo infantil de Koré de disparar cem perguntas e a paz daquela senhora, a sabedoria tomou a voz:
— Sabe, venho todos os dias aqui fazer este lanchinho.
Koré sorriu, sentindo que recebia a chave de um universo particular.
— Qual o sabor do seu suco? — quis saber a senhora.
— Beterraba, cenoura e laranja — respondeu Koré.
— Hmm, raízes e cítricos! A cor é magnífica. Mas eu... eu prefiro o de melancia. É doce, é bonito, já reparou?
A senhora mastigava um pão de queijo com uma elegância miúda, protegendo-o em um guardanapo. Comia devagar, honrando o tempo da digestão e da vida.
— Se queres viver mais, cuida da saúde. Isso é o solo, o alicerce. Mas as pessoas andam orbitando longe de si mesmas, não acha? Não basta o corpo estar são; é preciso convidar a vida para bailar. Olhe lá fora... percebeu como o azul hoje resolveu aparecer?
Koré olhou. O azul estava lá, intenso. Viu a sombra de uma borboleta desenhar o símbolo do infinito no asfalto.
— Eu caminho, tomo sol, sorrio para estranhos. Não passo pela beleza sem tocá-la. Há quem se perca em ninharias, quem transforme bobagens em fardos de chumbo que drenam a existência. Eu prefiro o movimento das memórias que trazem sabor. Lembro do meu avô no Nordeste... ele me pedia mangabas firmes. Descascava-as com um prazer quase sagrado e as mergulhava na farinha. O azedo da fruta com a secura da terra na boca... que explosão! Ele era um sarrista. Já minha avó era o oposto, uma seriedade só. Sofreu, decerto, mas não é a vida difícil que amarga a alma; é o vício no próprio amargor. Quantos sabores deixamos de sentir por estarmos viciados no fel?
O silêncio retornou, mais longo, mais vital.
— Muitos vêm de infâncias áridas, campos de batalha. Aprendem a lutar e esquecem de viver, repetindo a guerra nos filhos na tentativa vã de fugir dela.
Koré sentiu os olhos marejarem. O encontro era uma epifania sem adjetivos, uma sessão de cinema onde a tela era a própria vida. O que seria uma relação genuína, senão aquele instante de nudez emocional?
— Deus me ensinou — ou talvez o próprio viver — que não somos ilhas. Eu me coloco em risco, me coloco em movimento. Se há maldade por aí? Sim, mas deixar de viver por medo dela? Jamais. A natureza é forma, é movimento, é beleza pura. Já pensou quantos filósofos se perderam tentando explicar o que eu sinto apenas ao caminhar?
A senhora levantou-se, retirando as moedas do bolso. Aos olhos de Koré, aquela mulher de baixa estatura agora parecia uma gigante que tocava o teto do café. Antes de partir para sua caminhada matinal, aproximou-se:
— Sentei aqui porque te achei linda. Eu gosto de gente interessante. Outro dia, disse a um moço bonito: "Está proibido de deixar de ser lindo!". Faço isso com meu velho companheiro, o bom humor. São noventa e dois anos de travessia.
Acariciou o rosto de Koré, deixou um sorriso no ar e saiu. O café continuava o mesmo, mas o mundo, para Koré, havia mudado de cor.
Onde a pressa termina, começa o rito;
a vida não é a soma dos dias, mas o brilho do que é infinito.
É a mangaba com farinha, o suco de melancia,
o riso que desobedece a dor e inventa a alegria.
Não se proteja tanto do vento que a vela esqueça de navegar,
pois o tempo é um rio que corre, sem nunca saber esperar.
Viver é a arte de ser semente e, ao mesmo tempo, o pomar;
é encontrar o sagrado no simples ato de apenas estar.


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