As não afinidades eletivas?
E=Mc²
"É suficiente dizer o verdadeiro de uma maneira estranha, para que o estranho acabe por sua vez por parecer verdadeiro".
de Goethe
"Não conhecemos as pessoas quando elas se dirigem a nós; somos nós que temos de nos dirigir a elas para saber como são".
de Goethe
Prólogo: O moço, muito preocupado em se parecer mais moço, se aproximou dela numa folia. Era um dia quente e infernal como "um bafo de dragão", mas nada como águas de março para apaziguar o verão, mas não neste dia, apesar da forte chuva, o hálito do tempo era quente e denso. Duas horas de conversa, para certos humanos, são suficientes para suporem contar suas vidas inteiras.
Costumava ser uma mulher de personalidade marcante, talvez um tanto exótica a certos olhos, não raro era cortejada até mesmo por algumas mulheres; se divertiu um bocado com os cortejos, mas nesse dia, um incomodo pairou sob seu humor, não raro, algumas cortejadas a fizeram se sentir reduzida a um mero pedaço de carne. Neste calorento dia, ela vestia um simples jeans e regata, os cortes das roupas lhe ressaltavam os traços finos e mercurianos, se movia com leveza e delicadeza, mantinha uma certa elegância, além de um enigmático charme.
Entre um flerte e outro, entre a razão e a falta de razão, se encantou por alguém que surgiu destoante no meio daquela enorme folia, uma presença calma, porém marcante, parecia alguém mais reflexivo, contido, seus passos marcavam a direção que realmente queria, havia uma relação sutil entre o espaço e seu corpo, é como se ele deslizasse, parecia saber o que fazer com seu sofrimento. Ele conseguiu destoar até mesmo dos amigos que o acompanhava, pois sua voz, mal podia ser ouvida. Sophia seria incapaz descrever as roupas que aquele homem usava naquele dia, mas ao lembrar dele, associava a poesia, a beleza, a beleza muito além de uma aparência física. Guardou para si a curiosidade e o encanto, o desejo que aquele homem despertou, para além das singularidades da razão. Sophia se contentou em admira-lo de longe, mas não fez isso por muito tempo, logo fora interrompida por um moço, não tão moço, que curioso, quis saber se Sophia estava acompanhada. Ela estava na companhia do amigo Péricles que havia saído para uma pequena aventura. O moço animado, logo se lançou para cima dela. Ele parecia muito seguro de si, mas algum descompasso conhecido para Sophia. O moço começou por expor ou propor sua idade, começou com 35 anos e até o final da noite estava quase aos quarenta. Pensou Sophia consigo mesma, quem sabe um dia ele resolva falar a verdade para si mesmo, quem se aproxima de outra pessoa e já começa mentindo sobre a idade? Ele tinha uma "pinta de surfista", mas a sua relação com o corpo, com a espacialidade, denunciava algum tipo de trava, não por acaso era Hefesto o seu nome, carinhosamente apelidado de Hefe. Parecia muito charmoso e carismático, mas não o suficiente para esconder certa rudeza; apesar de falante, lhe faltava habilidades com as palavras, no trato com as pessoas, sem culpa, ele projetava sua falta de habilidade nas interlocuções, no outro. Vestia uma estranha bermuda bem maior que seu número, muitas vezes, andava a puxar a bermuda para cima, a camisa, que segundo ele, havia sido comprada num brechó, experiência única em ser "cool", não parecia realçar com a verdade de quem a usava, no entanto, ele portava um adjetivo, "maluquinho", o que lhe furtava toda a sorte de responsabilidades.
Sophia naquela noite oscilou muito entre razão e emoção, mas o desencontro com o desejo deu lugar para "mais do mesmo". Ela passou a noite com Hefesto, o moço não tão moço. A baila do pavão conduziu Sophia para um lugar mais reservado, o moço contabilizou suas investidas de folia, deu nome de "performance", da qual Sophia também constituía um número, justificou como cura para sua baixa auto-estima. A cura para baixa auto estima incluiu também sacrificar os filhos, pois eles ficaram a espera dele durante todo o período de folia. Além dos filhos, ele trazia na bagagem alguns insucessos nos relacionamentos, inimizades, conflitos, inclusive familiares. Será que essa criatura em algum momento se relacionou com alguém de forma genuína? Afinal o que essa alma sofredora e produtora de sofrimento tentava falar? Perguntou-se Sophia.
No dia que se conheceram, fazia dois, que o moço estava de favor na casa de um amigo, antes havia se enrabichado com uma dona que o colocou para fora de casa, jogou suas coisas na rua, segundo ele, movida pela raiva e pela falta de sexo. Ingrata! Ele havia ofertado umas boas encochadas. De alguma maneira, ele se sentia agradecido e feliz por ter sido expulso pela dona, até porque, sequer ela fora solidária a ele quanto a educação dos filhos. Penélope questionou sobre os contratos, os acordos entre duas pessoas, de certas clausulas, muitas vezes invisíveis, das quais, só uma das partes, parece saber e concordar. Ele admitiu que boa parte das clausulas, somente ele conhecia, mas se sentia aliviado e livre. Penélope questionou também o por que de ter de ouvir aquela história? Ele disse que não sabia porque, mas queria mesmo era desabafar.
O moço também reclamou da hospedagem do amigo, da falta de organização, de um toque feminino, além de se mostrar insatisfeito por ter sido instalado no quarto de empregada, reconheceu depois que era o único disponível na casa. Nada que destoasse com baila de sua vida, uma baila "desbussolada", horas ia para oeste horas para noroeste. Parecia que estava a uma longa data a reagir, a tomar ações sem pensar. Parecia habitar somente a margem de si mesmo. O desespero, a responsabilidade, e a falta de, o fez talvez repetir coisas na vida, mal conhecia Sophia e pediu para ficar 15 dias na casa dela. Dias depois não só flertou com a ideia; mas também a convidou morar com ele. Sucessivamente queria lhe apresentar aos filhos, queria a ajuda dela na educação deles, queria apresenta-la a mãe dele, tudo isso em menos ou mais de 30 dias. Todo esse absurdo para Sophia, foi se somando a um desejo que iniciou logo no dia em que se conheceram, Sophia queria mesmo era abandoa-lo, de uma hora para outra, apenas usando os sotaques do silêncio. Assim o fez, não sem antes ter suportado tantas outras investidas do moço, que inclui crise de ciúmes e demonstração de possessividade. Sophia estava certa que não queria aquilo, que tinha relação alguma com seu desejo. Seja la o que for que motivava o moço, Sophia não gostaria de acompanhar a jornada dele muito menos a reciproca. Apesar de compreender uns pares de sofrimentos, de coisas que sequer, talvez ele tenha se dado conta de ter dito, como de ter nascido prematuro, de ter sobrevivido por alguns dias numa encubadora, de ter sido abandonado quando bebê por tempos a mais, pela mãe não poder escuta-lo, de ter sido expulso de algumas casas, inclusive da casa da mãe, da falta de sanidade do pai, de ter uma relação mal ajambrada com os irmãos, de se sentir abandonado, de ter a ideia pueril de curar-se da baixa auto estima com algumas transas de carnaval e por aí vai. Ainda que Sophia pudesse compreender um bocado de coisas, não cabia a ela carregar a carga do moço, muito menos acompanhar, cabia a ele lidar com o próprio sofrimento, elaborar, nomear. Apoio não significa carregar a carga do outro. Sophia carregou muitas cargas alheias, havia acompanhado jornadas parecidas que só lhe promoveram desgastes, devastação. Admitiu que por um curto período de tempo, ainda que negando as demandas do moço, não foi fácil estar com ele, foi um bocado cansativo e lhe garantiu mais uma ida no inferno, mais uma moeda deixada para Caronte, uma sintonia viciada "a mais do mesmo". Sophia então adotou os sotaques do silêncio sem a menor culpa, jamais voltou a responder o moço que fez meras tentativas de contato. Ela se sentiu aliviada, mas ao mesmo tempo angustiada. A angustia não disfarça e avisa que algo não corre bem. Ela precisaria não somente se conscientizar desse tipo de vício, mas tomar atitudes que a levassem ao encontro do desejo, não mais na contra mão dele. Depois de algumas reflexões, concluiu que deseja manifestar uma versão melhorada de si, para tanto, as pessoas que escolhe se relacionar importam e muito, há pessoas que puxam para um tipo de sintonia, talvez viciada, há outras puxam para uma versão melhorada de si mesma, e foi esta direção a escolhida, sem muito racionalizar. Sophia foi para o ato, não sem antes refletir sobre a novela irônica do Goethe "Afinidades eletivas", entre fé e razão, há muita confusão, acima de todas as dúvidas: qual é o envolvimento que ajuda a manifestar uma melhor versão de si mesma?
Partiu, mas não sem antes testemunhar os espasmos de possessividade e ciúmes dele. Sophia compreendeu as cicatrizes do moço: o nascimento prematuro, a incubadora, o abandono materno, a ausência de sanidade do pai. Mas compreensão não é carregar o fardo alheio. Ela já havia caminhado por vales semelhantes que só lhe trouxeram devastação. Estar com ele foi um mergulho cansativo no inferno, mais uma moeda entregue a Caronte no vício do "mais do mesmo".
Adotou o silêncio sem culpa. Ele tentou alcançá-la, mas ela já não habitava aquela frequência. Entre o alívio e a angústia, Sophia entendeu que a dor era um aviso: era preciso marchar em direção ao desejo, e não em sua contramão. Refletindo sobre as Afinidades Eletivas de Goethe, compreendeu que as pessoas com quem nos entrelaçamos moldam nossa sintonia. Algumas nos ancoram no vício; outras nos convocam a uma progressão. Sophia escolheu a luz, mergulhando no ato de ser si mesma, além de qualquer dúvida.


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