O dia em que saí de casa

O dia em que saí de casa 

Saí logo cedo para colher ervas, apesar de ter acordado com uma estranha agitação, à medida que eu me aproximava da horta escutava passos que não eram meus, vozes que não eram minhas, fui me transformando em tantas coisas. Eu podia ser até mesmo uma erva daninha. As vozes me davam ordens e eu obedecia. Alcancei a foice mais afiada e corri lá onde eu fazia alquimias com uréia, mas minha mãe crocodila, não gostava, não permitia. Cheguei no meu laboratório e flagrei minha fazendo exatamente o que sempre fazia, jogava fora todo meu trabalho, por isso armei um golpe certeiro para acabar com essa agonia , se não fosse o vento eu teria acertado, não desisti, continuei a persegui-la, mas infelizmente fui golpeado por uma pedra e por outra também, as pedras faziam parte de uma conspiração contra mim. Acordei na Colônia Juliano Moreira, nem sabia quanto tempo havia se passado, porque permaneci um longo período em catatonia, foi o que me disse a simpática moça de branco que me trazia uns remédios. Recobrei a memória do dia em que saí de casa e como tudo ocorreu na mais não perfeita harmonia, perdi a paciência com minha mãe e tudo se resumiu em: vozes, desmaio, foice, ataque, gritos, socorro, choros, xingamentos, família, horror, policia, camisa de força, banho gelado, confusão, choque, sossega leão, vegetal, banho morno, vozes. Enfim, ali na Colônia encontrei um pouco de beleza e passei a esculpir em juá, além de ter apostado todo meu talento na produção de jóias a partir da combinação de areia, carbonato de sódio, calcário, óxido de ferro e outros, não posso falar sobre esses outros, mas posso falar que adoro receber visitas dos familiares, principalmente porque me trazem cigarros, as vezes, as vozes me dizem para mandá-los embora, assim eu faço, mas sempre agradeço pelos cigarros. Quando os recebo conversamos muito, por isso me preparo especialmente com os acessórios dos quais produzo. Tenho uma saia com muitos adornos, mas essa é para uma visita muito especial, enquanto ela não vem, preciso me manter protegido e por isso uso três chapéus de uma só vez, é para a mais perfeita cópula D’Ele.

 In memorium ao meu tio avô Zuzu- José Carlos Rogério que viveu a maior parte da vida na Colônia Juliano Moreira.

Comentários

Postagens mais visitadas