Mensagem recebida
Gisela é uma mulher agitada, se diz ansiosa e se justifica numa série de precipitações em relação a si e aos outros. Costuma ler e responder suas mensagens antes e durante o café da manhã, passa o restante do dia pensando nas respostas que pretende dar, nem que para isso adie suas idas ao banheiro ou deixe de comer.
Ela possui uma escuta dinâmica, por isso se embaraça nas respostas e interpretações. Constantemente recebe retificações de suas mensagens. Sem graça, limita-se a repetir o que escutou como um papagaio, possui uma grande dificuldade em de dar continuidade no assunto ou trocar. Apesar disso, escolhe as palavras criteriosamente, mas se perde no labirinto das escolhas, a palavra fica presa, pois sua grande preocupação é falar de forma acertada e que agrade o interlocutor.
Numa tentativa de sustentar um frágil enlace, traz a baila trivialidades, é mais fácil conduzir a si sem auto censura. Consegue expor fragilidades e sua forma apaixonada de viver. Deseja um mundo melhor e sente que contribui fervorosamente para isso com soluções rápidas. Não lhe falta entusiasmo, é apressada e agitada a ponto de engolir palavras e solta-las oxidadas.
Outro dia acordou as 4h da manhã com a certeza de estar muito conectada com alguém, não hesitou em escrever uma mensagem, tinha certeza que sentia exatamente que o outro sentia, exatamente o que o outro precisava. Enquanto escrevia a mensagem, o coração acelerava, como num filme infantil de sessão da tarde, em que os amigos fazem pacto de sangue e juram uma amizade eterna. Quanta alegria esboçada nessa conexão.
Ela não poupava sacrifícios para se manter muito presente, prestativa, correria riscos, desejaria o que jamais desejou. Era excessivamente disponível.
Não fazia tudo isso desinteressadamente, garantiria alguma coisa, portanto, cobrava respostas, satisfações, explicações. Também se explicava repetidamente. Qualquer insucesso nas cobranças a levava investigar as redes sociais do alvo, mas se mesmo assim não obtivesse sucesso, era tomada de raiva e apelava para telefonemas insistentes, incluindo telefonemas de um número desconhecido, usado especialmente nestas ocasiões. Se sua ausência na vida do outro continuasse, mudava a tatica, enviava mensagens com um tom choroso e sofrido, dizia ser demais a solidão, a falta que sentia de si na vida de algum outro era insuportável, não podia se resumir a uma mensagem recebida. Ela queria mais, porque achava que dava muito.


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