Sobre um assédio


Sobre um assédio 

A noite de sexta-feira não era apenas fria; era um deserto de gelo que cortava a pele como navalhas invisíveis. Sophie e eu caminhávamos em direção ao show de Siouxsie and the Banshees, sepultadas sob camadas de sobretudos, cachecóis e botas que pareciam insuficientes diante de tal inverno. O único alívio, um fogo que nascia de dentro, surgiu quando começamos a cantar os primeiros hits da banda; as notas musicais eram o combustível que finalmente impedia nossos dentes de castanharem uma melodia de desespero.

Ao cruzarmos o portal da casa de shows, o balcão do bar foi nosso altar imediato. Pedimos doses duplas de destilado, o líquido abrasador que descia rasgando a garganta, prometendo o degelo. Ali, nos bancos giratórios de um vermelho pulsante, começamos a nos despir das armaduras de lã. Mas a atmosfera era densa. No balcão, a presença masculina operava como uma horda de agrimensores silenciosos; seus olhares eram tacógrafos implacáveis, medindo nossos corpos com uma precisão cirúrgica e invasiva, uma métrica de posse que Sophie e eu jamais desejaríamos alcançar. Eram homens que, tenho plena convicção, seriam capazes de calcular a curvatura exata de uma mulher mesmo sob a rigidez de uma burca.

Fugindo daquela asfixia de testosterona, buscamos o abrigo em frente ao palco, o lugar onde a música nos tornaria intocáveis. O primeiro acorde foi uma corrente elétrica que costurou nossas almas ao som. Eu estava mergulhada em um transe místico, flutuando na terceira canção, quando o sagrado foi profanado: uma mão, carregada de uma audácia vil, encheu-se da minha nádega. O impacto não foi físico, foi uma corrosão na alma. Olhei para trás com o coração transbordando um fel amargo e encontrei três rapazes, em seus vinte e poucos anos, cujas gargalhadas ecoavam como o escárnio de hienas. Eu me senti nua, humilhada, ferida em plena luz da arte.

Tentamos o exílio nos fundos do bar, buscando a proteção de pequenas mesas, mas o pesadelo tinha pés e sede de perseguição. Ao som de "Dear Prudence", quando eu tentava fechar os olhos para buscar a paz, a mão predatória repetiu o crime. "Open up your eyes", cantava Siouxsie, e eu os abri para o abismo da minha própria ira. Não importava de qual braço partira o toque; todos eram cúmplices daquela barbárie. Arrastei Sophie para trás deles, transformando meu medo em um ataque visceral. Cantei "Look around" para alcançar seus ouvidos, um grito de guerra disfarçado de coro, até que suas risadas secassem na garganta e eles recuassem, desconcertados pela fúria de quem não mais se calaria.

Minha vingança final não foi gritada, foi performada. Virei meu copo de uma só vez, deixando o destilado escorrer como um batismo de fogo pelo pescoço, e marchei até eles. Bati o copo vazio contra a mesa onde estavam com a força de um trovão, fiz  o mundo deles estremecer. Meus olhos eram punhais; meu silêncio era uma sentença. Eles, boquiabertos e trêmulos, tentaram equilibrar suas bebidas enquanto eu lhes dava as costas, vitoriosa em meu próprio asfalto.

Após um intervalo que serviu como rito de purificação no banheiro — onde entre rímel e gloss tecemos a sororidade necessária com outras mulheres —, voltamos ao calor da pista. Sophie entregava-se a "Christine", e eu, recalibrada pela coragem e pelo álcool, dancei entre os reflexos de um caleidoscópio humano. O dono da mão "brincalhona" ainda tentou uma abordagem, uma desculpa esfarrapada de que tudo era apenas um jogo. Minha resposta foi um muro de granito: não há justificativa para o saque de um corpo alheio.

Afastamo-nos para o coro final, deixando-os para trás como sombras que o sol da manhã inevitavelmente dissiparia. Praticamente coladas ao palco, o ápice se deu quando nossos olhos cruzaram com o brilho magnético de Siouxsie Sioux. Ela desceu até nós, como uma divindade sombria reivindicando suas filhas, e em uníssono, as vozes se fundiram em um feitiço eterno.

A música não era mais som, era oxigênio. Nossos corpos, antes medidos por olhares vis, agora eram vastidões infinitas onde o assédio não ousava mais ancorar. Sob o luar artificial dos refletores, éramos deusas de um culto elétrico, transformando a dor em poesia rítmica e o medo em fumaça. "We are entranced! We are spellbound!", o grito ecoava como um decreto de liberdade absoluta, enquanto as notas finais de "Kiss them for me" flutuavam no ar, como pétalas de ferro caindo sobre um mundo que, por aquela noite, finalmente recebeu um corte, um ato de - aprenda respeitar através do nosso silêncio ensurdecedor e de nossa dança indomável.

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