A voz da mulher do waze

A voz da mulher do waze

 
 
O sol das sete ensaiava seus primeiros passos sobre os trilhos de São Paulo, mas ali, no ventre metálico da cidade, o tempo corria em um compasso generoso de contrafluxo. Em meio à calmaria rara de um vagão quase vazio, dancei com as mãos no abismo da bolsa, tateando entre sombras e objetos até que, após um breve duelo com um guarda-chuva teimoso, a melodia de Joan Jett libertou-se para invadir meus ouvidos. "Bad Reputation" pulsava em minhas veias, um hino de liberdade que parecia reger aquele momento de paz solitária, até que o feitiço do rock foi interrompido por um eco de estranha familiaridade.

Ao meu lado, uma voz desprovida de alma humana, mas carregada de uma precisão algorítmica, oferecia por parcas moedas a promessa de segurança para os tesouros cotidianos, sugerindo que até o caos da 25 de Março se curvaria diante de um simples porta-documentos. Estaquei, suspensa entre o ritmo da música e o metal daquela locução, reconhecendo nela o fantasma digital que costuma ditar caminhos, prever radares e anunciar curvas acentuadas em telas de vidro. O oráculo dos mapas, que outrora guiava motores por asfalto e pressa, agora habitava o corpo de uma vendedora ambulante, transmutando sua essência robótica em um pregão de sobrevivência urbana, deixando-me a questionar em que curva do destino a inteligência artificial decidiu desembarcar na vida real para vender proteção.

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