Não é desta flor que eu gosto
Não é desta flor que eu gosto
Eu prefiro desfrutar o perfume e a beleza dos lírios, cravos e tantas outras flores do campo, a me inclinar num abismo e apanhar uma flor que exala o mais puro desprazer.
Tudo começou em 1992, eu havia acabado de mudar de escola para continuar os estudos secundários, nem tudo era tão novo, alguns colegas do primeiro grau me acompanharam, o que foi bem legal de um ponto de vista, porém péssimo por outro. Entre novidades e a falta de, a juventude. Eu desejava me tornar uma literária, especializada em literatura francesa, me inspirava no livro "O Estrangeiro" com pouco entendimento, o que não me impediu de prosseguir, ainda mais depois da ajuda das professoras de literatura. Foi um período de produtivas conversas e trocas, inclusive entre meus colegas, na época, alguns eram fascinados pelo livro "Erva do Diabo" , outros pelo "Diário de um Mago", havia um ou dois que gostava de ficção científica, o que quer dizer que, tínhamos um vasto repertório para discussões, principalmente quando a existência de Deus era questionada.
Numa das minhas andanças pelos corredores da escola, avistei o cara da outra sala que eu gostava, meu coração até disparou. Ele estava ali escorado perto da porta da sala compenetrado num livro. O nome dele era Alberto, um cara alto, cabelos ruivos, bonito, se vestia com roupas rasgadas e camisetas de bandas, o que lhe caía muito bem, principalmente porque combinava com seus coturnos surrados. Neste dia, apesar da compenetração dele, resolvi me aproximar, ele só me percebeu quando dei uma abaixada meio discreta para olhar a capa. Nos encaramos e ele sorriu. Levantou o livro e me mostrou a capa. Correspondi com um sorriso e apressadamente me apresentei: oi meu nome é Diotima.
Rimos e ele se apresentou também.
Ao voltarmos no livro, fui compreendendo ao longo da conversa o porquê dele ler a biografia de Chiquinha Gonzaga. Avançamos nessa em outras conversas, não só pelos corredores, mas também pelo pátio da escola, pelo bar, pelos dias de amizade que se seguiram. Conversávamos sobre tudo, de besteiróis a crises existenciais e até mesmo de anti filosofia, também de desejos, dos desejos enigmáticos de uma mulher, ele gostava muito desse assunto. Concordávamos muito na inexistência do instinto materno e creio que essa uma característica que o diferenciava dos outros caras da escola, caras que mais pareciam com bebês chorões.
Tivemos assuntos densos, porém expansivos, reflexivos, exceto quando estávamos acompanhados do amigo dele. Ah! O amigo dele. É extenso, mas não quero gastar muita energia escrevendo sobre. Quando ele aparecia nas rodas de conversas, eu sentia um enorme desânimo, acredito que, desde o dia que nos conhecemos. Se bem que, nem me lembro deste dia, mas me lembro bem que ele era escasso de beleza. Ades era um cara baixinho atarracado, cabeçudo e de língua presa. Se vestia de forma démodé, forçava a combinação de colete acetinado com tecidos de outras texturas.Talvez um reflexo de sua forma de pensar?
Um dia, estávamos Alberto e eu numa longa discussão sobre paixão e sobre atender ou não o que nos era demandado. Eu defendia que paixão era uma doença, nunca confiei muito em pessoas apaixonadas, apesar da minha juventude. Alberto defendia que a paixão movia a vida. Eu retrucava, movia a morte. O debate estava delicioso, mas fomos bruscamente interrompidos por Ades. A pressão atmosférica aumentou e aquele ar professoral dele nos levou somente a um lugar, lugar da esterilidade da conversa, Ades era mestre nisso. Ficamos lá por um tempo com caras de bostas, sem continuar com nenhum papo, provavelmente ele sequer percebeu isso, mas como dizia uma professora: o bom senso não se compra na farmácia. Pensando bem, o Ades não era dado a escuta, nem tampouco se interessava pelas pessoas, tinha mais necessidade de falar de si, do que dizia que sabia, do que fez ou deixou de fazer, raramente conseguíamos completar uma frase na presença dele, ele sempre nos interrompia. Muitas vezes, tive a impressão de que ele queria formar discípulos e não fazer laços de amizades.
Não suportei muito estas atmosferas densas de conversas estéreis, mesmo gostando muito da companhia e da amizade do Alberto, mas aguentar o amigo dele era demais pra mim. Resolvi me afastar e mantive conversas ocasionais, o que foi muito bom para desfrutar dos outros laços de amizades.
Me pareceu que o meu afastamento intensificou o delírio do Ades, já lhes digo o porquê. Era o último ano dos estudos secundários, infelizmente fomos parar na mesma sala, decidi me instalar numa carteira do lado oposto, perto da porta, acreditei que esse gelo manteria as conversas ocasionais.
Nesta época, eu ouvia muito a banda "The Doors" e como uma boa fã, vestia a camiseta da banda dia sim e dia também. Coisa muito óbvia, né? Mas tive de entrar nessa obviedade porque depois de alguns dias, soube numa conversa com outro colega que, o Ades havia declarado ser a reencarnação do Jim Morrison, o vocalista do The Doors.
Pensei até mesmo em me mudar de escola, mas era o último ano, ano que já tinha corrido um tanto, tive receio de me prejudicar, além disso, acreditava que nenhum diálogo com Ades seria frutífero, como realmente não foi. Me agarrei às outras amizades bacanas e nas forças que pude juntar. Me reanimei, mesmo com uma sensação horrível de que o pior estava por vir. Consegui refletir sobre o fato de ser bem jovem naquela época. Eu era sonhadora como muitos outros jovens, porém jamais fantasiei romances com meus ídolos, convenhamos, né? O Jim Morrison não sofria deflação de beleza, mas com certeza não era o tipo de cara que eu gostaria que estivesse ao meu lado. Mais a mais, não nego que cultivava fantasias com homens, mas essas eram com os bonitões mais velhos lá da rua onde eu morava.
Apesar de não acreditar nessa coisa de reencarnação, a declaração do Ades de ser a reencarnação do Jim Morrison, se tornou um mau presságio, todavia, tive muitos momentos de alívio, porque na maioria das festas do colégio o Ades não era convidado. Neste período, o número de festas do pessoal do colégio se intensificou, acho que por causa da angústia de separação. Outra coisa que aconteceu e que me proporcionou mais alívio, foi a chegada do Fê, transferido da turma da manhã, com um jeito mais maduro, ajudava no sustento da casa e não por acaso, sempre chegava atrasado na aula por causa do trabalho. Ele era um cara loiro, grande, de lindos olhos verdes, também muito querido, principalmente pela sua generosidade. Me lembro bem do seu primeiro dia na sala, atrasado e esbaforido, entrou triunfante com aquele olhar sedutor, até congelei na cadeira. Ele se instalou de forma confiante no outro extremo da sala, mas lá da frente eu podia vê-lo.
Nossos olhares passaram a se cruzar com frequência, devagar ele foi adicionando mais, uma piscadinha, uma batidinha na minha carteira, até o momento que tomou coragem de pedir emprestado meu caderno e passou a fazer isso com frequência.
Num desses empréstimos de sexta-feira feira, nos desencontramos, ele não pode devolver o meu caderno, ficou desesperado atrás de mim. Quanto a mim? Bem, eu estava tranqüila, apesar da prova que teríamos na segunda-feira.
Sábado à tarde, eu havia acabado de arrumar meu quarto e brincava com meu gato Nicolau, entre mordidas e arranhões, o telefone toca. Escuto minha mãe anunciar segundos depois: Dio, pra variar é pra você, é um tal de Fê.
Peguei o telefone com as bochechas em chamas, disse um alô meio rouco e a resposta veio acanhada: me perdoe.
Silêncio.
Caímos na risada.
Quando pudemos nos recompor, disse a ele que não havia problemas, nem mesmo eu entendia minhas anotações, mas queria entender o por que dele tomar emprestado meu caderno. Caímos novamente na risada.
Entre uma sessão e outra de risadas, um momento sério. Foi então que ele declarou que pegar meu caderno emprestado era um meio de estar mais perto de mim. Silenciei, não sabia o que dizer.
Não tive dúvidas, depois dessa declaração, convidei-o para ir à minha casa, como morávamos perto, logo ele chegou, nem mesmo havia terminado de me arrumar. Fiquei feliz em vê-lo, no portão de casa nos abraçamos e senti o perfume campestre e o sorriso ensolarado dele. Suspirei e convidei-o para entrar. Era um dia de cantoria na minha casa, violão, bebidas, cigarros e os amigos irônicos da minha mãe, apesar disso, o Fê não ficou desconfortável, nem mesmo com o meu sarcástico avô. Depois, apresentei meus bichos de estimação e também meu quarto que era decorado com quadros e miniaturas de balões e aviões. Ah! Tinha um pôster do R.E.M.
Enfim, decidimos desfrutar da companhia um do outro num passeio, assim que saímos pelo portão, ele pegou na minha mão, estava tão quente que só um sorvete pode arrefecer. Sorvete, beijos, sabores e a delícia da juventude.
Passamos a nos relacionar desde então, só não contamos para o pessoal da escola, todavia, o segredo não durou muito, fomos flagrados numa festa que ocorreu duas semanas depois. Festa, cujo anfitrião era o professor de sociologia, que também ficou boquiaberto ao saber do nosso romance. Estranhamente o professor me abordou num canto mais isolado da festa e lançou uma pergunta nonsense: Por que você não namora o Ades? Respondi: Que perguntinha, hein professor! Mas essa tá fácil de responder. Até mais. Vou atrás do Fê.
Em pouco tempo estava a escola inteira sabendo do nosso romance, muitos olhares e comentários me constrangeram, alguns foram receptivos com a novidade, outros não, o Ades por exemplo veio tomar satisfações, como se eu fosse a namorada que havia o traído.
Ignorei.
Minha relação com o Fê se intensificou, no entanto, alguns dias depois, na saída do cinema, fomos surpreendidos pelo Ades. Ele se aproximou de nós sem nenhuma cerimônia e num tom intimidatório, nos falou que nos seguiu a semana toda. Ficamos atônitos, por alguns segundos sem saber o que fazer ou dizer.
Recuperei minhas forças e pedi para que ele fosse embora, o Fê apertou minha mão, pois acreditava que não poderíamos dar palco para maluco dançar, era tudo o que o maluco queria, pesar na atmosfera. Eu e o Fê nos olhamos. O Fê reforçou o que eu disse. Completei: Que isso não volte a acontecer, você passou dos limites, aceite a realidade que o cerca, lide com isso, vá cuidar de sua vida bem longe da gente.
Uns dias depois desse evento, o Fê começou a ficar estranho comigo, cancelou encontros, cessou os telefonemas, mal falou comigo na escola. Alguma coisa estranha tinha acontecido, por sorte, na festa do final de semana pude esclarecer o equívoco.
Não encontrei o Fê na festa, o que me deixou mais desacorçoada, felizmente, encontrei seu primo, o Xuxu, quem me contou horrores que se resumem no seguinte: Ades procurou o Fê, meu namorado e repetiu aquela alucinação sobre ser a reencarnação do Jim Morrison, não parou por aí. Acentuou sua vã teatralidade, dizendo que ele e eu, estávamos juntos há muitos anos, muitas encarnações, e, que nesta vida, não seria diferente, éramos prometidos um para o outro, tínhamos um pacto de sangue, nada e ninguém poderia deter.
Poderia sim, eu mesma, a dona do meu próprio desejo.
Depois que contei pro Xuxu um pouco mais do que o Ades havia aprontado, fiquei mais tranquila. Quanto ao Fê, bem, ele havia viajado para o litoral para cuidar da avó doente, para conseguir este feito, precisou antecipar algumas horas de trabalho, por isso, estava tão difícil de falar com ele, segundo o Xuxu, ele tentou me telefonar algumas vezes. O Fê estava chateado pelo estado de saúde da avó e também por não ter conseguido falar comigo, repetiu tudo que o Xuxu havia me contado e daí traçamos um plano, o de continuar ignorando o Ades e suas alucinações.
Fê e eu nos relacionamos por muito tempo, por mais tempo do que o Ades possa imaginar, mas ele não se conformou com a rejeição. Fato que se manifestou nas mentiras que ele inventou, nas manobras, nas difamações, que se estenderam ao término do colegial. O que me conforta é a própria frase dita por ele num momento de teatralidade vil: Eu não sei o por que da Diotima não gostar de mim?
O porquê? É questão dele, mas ficou claro para mim nesta frase que ele sempre soube que eu nunca gostei dele.


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