Vida loka
Vida loka
O olhar desviado no bar não era timidez, era desdém soberano, um jogo erótico em outro canto que me entretinha mais que sua presença, lá onde eu era a caçadora. Mas foi la na calçada que me tornei sua caça.
Dissimulada, aceitei a inversão de papéis, fingindo interesse nas suas tatuagens, seguidamente despejei meu saldo sádico desfarçado de críticas. Eram quase críticas diretas por pura provocação, mas para minha surpresa suas respostas não foram óbvias. Você conquistou a minha atenção.
É certo que passados poucos minutos eu comecei a sentir uma leve preguiça, principalmente quando você atribui a mim o adjetivo de bruxa. As vezes, o adjetivo fica tão inflacionado que perde o sentido.
Logo após, um novo incômodo sutil se fez sentir; ao decifrar a ancestralidade desenhada em sua pele, você selou em mim, instantaneamente, a posse de uma sabedoria que é apenas sua. Como se o saber sobre a origem fosse o mesmo que viver a dor e a delícia de cada traço. Esse salto silencioso me fez mergulhar na reflexão sobre o quão vertiginoso deve ser para você se expor, vestindo-se de símbolos para, talvez, esconder a nudez de um eu que ainda teme ser inteiramente lido. A tatuagem, afinal, é essa ponte trêmula entre o que se quer dizer e o que se consegue revelar, e conhecer a origem de sua tinta me revelou mais sobre o seu medo de ser visto do que sobre a história que seus desenhos tentam contar.
Apesar desses incômodos de alguma maneira a conversa fluiu, até a chegada do seu convite para sairmos dali. A princípio de forma equivocada, acreditei que o convite era só para mim, descobri imediatamente que ele se estendia ao seu grupo "tão coeso", que demandou uma interminável negociação.
Desanimei.Apartada das negociações e isolada de você e o de seu grupo, dei um passo para outro lado da calçada para desaparecer na neblina, mas fui interrompida pelo músico da banda que acenou para me dar um abraço. Enquanto eu o cumprimentava, você se reaproximou.
Tarde demais. Eu não podia mais sumir.Foi assim que compus seu grupo e marchamos em direção ao nada. Durante o caminho os laços se desataram, primeiro por um de seus amigos que ficou para trás, um outro demonstrou indiferença e contaminou os demais, o mais pavoneado nos rouba a atenção ao tentar fazer um piada do próprio corpo.
Continuamos na marcha até encontrarmos um destino naquele quilombo urbano, um lugar experimental onde pude testemunhar um pouco mais sobre sua humanidade e talvez também um tanto da minha.
Enquanto fazíamos parte daquela enorme fila, as mulheres que nela também estavam, reclamavam da demora, da falta de fluxo, de um box bloqueado. Você vestiu a capa de solucionador. Meu espanto se fez carne e voz quando você justifica o bloqueio – um corpo caído, talvez a sofrer, ali, num canto indevido – encontrou o seu vazio "sei lá". Era um desmoronamento da alteridade, uma interrupção cruel onde a fragilidade alheia foi reduzida a um simples empecilho. Como engolir, como aceitar que a urgência de uma vida em queda se tornasse apenas "um cara caído", uma paisagem incômoda que se contorna em vez de socorrer? Aquela indignação que lhe lancei não foi apenas contra o bloqueio do espaço, mas contra o bloqueio da alma, a paralisia do sentir diante de um outro eu, ali, no limite do banheiro, transformando o "sei lá" em um eco de desumanidade que ainda vibra difícil, pesado e profundo para mim.
Ainda não sei se elaborei bem isso, apesar de reconhecer que você retificou o ato imediatamente ao tira-lo do daquela situação e oferecer um suporte. Ainda fica em minha mente o fato de um cara branco estar num quilombo e ao encontrar um negro no banheiro, diz que é só um cara passando mal. A névoa se adensa e o espelho reflete uma angústia antiga quando meus olhos encontram os seus, um homem branco, e reconheço no abismo da nossa diferença o peso da minha própria pele. Caminhar ao seu lado tornou-se um exercício de apagar-me, um sussurro violento que gritava na minha alma a cada olhar torto, a cada silêncio cúmplice da sociedade, transformando o afeto em uma engrenagem de desumanização. Aquela cena, desenhava-se como a crônica de um apagamento, uma coreografia forçada onde eu era a sombra exótica e você o centro iluminado. Sentir isso na carne foi sentir o estilhaço da história, um peso insuportável que mordia minha dignidade. Por isso, a permanência tornou-se impossível, e restou-me apenas o ato de partir, um voo solitário em busca de mim mesma, deixando para trás não um amor, mas a cena de um crime silencioso contra a minha existência negra.
Foi por isso que propus sua permanência com os remanescentes do seu grupo, mas trai a mim, sucumbi a sua insistência retomando a posição de caça e assim partimos para minha casa com todo esse turbilhão de emoções.
Quando cruzou a soleira da minha porta, entendi que o inteiro de ti já não me pertencia; era apenas uma metade que chegava, um resto de presença enquanto a outra metade, a mais viva e talvez a mais dolorosa, permanecia aprisionada entre as sombras dos sumidos, ancorada em culpas que não eram minhas. O espelho daquele momento me devolveu a imagem de um pai omisso, assombrado pelo próprio silêncio, uma dor antiga que eu recusa elaborar. E ali, uma filha adulta, feita de carne, sangue e queixas, deixou de clamar por um abandono antigo.
Fomos interrompidos por mensagens apressadas no seu celular, vindas de seu amigo, coisa que se apertou e forçou sua alma a retirar-se do meu abrigo. Enfim, suponho que você voltou para o lugar onde a sua dor lhe dá identidade.
Por outro lado, a exaustão de sua presença me consumia e o único refúgio possível era o mergulho profundo nos domínios de Morpheus, onde o sono e o sonho poderiam enfim silenciar o peso dessa experiência. Eu ansiava por um hiato, um tempo suspenso para processar o que restava de mim, mas a realidade amanheceu com pressa, trazendo demandas e rastros concretos da sua passagem: um carregador e um amuleto esquecidos, pequenas âncoras que forçaram nosso reencontro. Enquanto eu buscava o conforto de velhos amigos, seus desejos prevaleceram, moldando um dia em que vi sua essência se fragmentar e se dissolver lentamente diante de mim. Quando a noite caiu e seu corpo parecia esvaziado de alma, não pude permitir que enfrentasse a solidão; ofereci cuidado e abrigo, tentando ser o porto seguro contra o turbilhão invisível que eu sentia devastar o seu silêncio.
De volta em minha casa, torço, faço figa, aumento a dose do seu chá, incentivo um banho quente e você resiste igual uma criancinha chata que não quer dormir. Enfim, você é vencido pelo sono. Me dou folga e também consigo dormir.
Nada como uma noite bem dormida. Você acordou outro, com mais inteireza, despertou meu corpo.Deleite.
Quase não saimos do leito.A fluidez dos dias se estilhaça em um mosaico de palavras mudas, onde o silêncio não é ausência, mas um deserto de verbos estéreis que nada germinam. Nessa descontinuidade, você ressurge como uma sombra, costurando argumentos esfarrapados enquanto carrega nas costas o fardo invisível de uma culpa antiga. O eco da minha voz tenta atravessar esse muro: você por acaso é o espelho das próprias frases ou apenas um náufrago da própria voz? Resta saber se o mundo é um mar revolto por natureza ou se é você quem insiste em navegar no redemoinho da própria insensatez até que a cortina finalmente se feche.


Comentários