Manifesto: O Corpo não é um Erro de Cálculo — Pela Autonomia e Escuta no Climatério

 


Esse é um manifesto para ajudar a compreender a travessia que habitamos, é preciso primeiro descolonizar os nomes que nos dão. A palavra climatério nasce do grego klimaktér, que significa literalmente "o degrau de uma escada". É um termo que evoca ascensão e movimento; não estamos caindo, estamos subindo para um novo patamar de existência que pode durar dez, quinze anos, não é um diagnóstico médico, nem um evento súbito; é uma travessia existencial e biológica. Já a menopausa — do grego menos (mês, lua) e pausis (pausa) — é apenas o porto onde um dia chegaremos, o marco sagrado do último sangue que encerra um ciclo lunar para iniciar outro. O perigo, porém, reside no cerco. A biomedicina nos impôs a perimenopausa: um termo onde o prefixo peri (em torno de) cria uma zona de vigilância. Enquanto o climatério nos convida a subir o degrau, a perimenopausa nos cerca com diagnósticos precoces, transformando a oscilação natural em uma patologia prévia para justificar a invasão hormonal. Se o climatério é vida, tempo e transição, a "perimenopausa" é a doença inventada para nos vender protocolos de urgência, transformando o amadurecimento em uma falha de sistema.

Minha jornada aos 44 anos foi atravessada por essa miopia diagnóstica. Naquele momento, meu ciclo já havia se reduzido naturalmente para vinte e seis dias. Era o início de uma transição que eu poderia ter atravessado com consciência,  principalmente porque eu mantenho hábitos saudáveis de alimentação e práticas de exercícios com o corpo. Mas o mundo parou na pandemia, e o estresse sistêmico de um planeta em colapso infiltrou-se nas minhas células, desregulando completamente o que ainda era ritmo. Ao buscar auxílio médico — mantendo minha rotina rigorosa de exames e acompanhamento — não encontrei escuta para o contexto de trauma coletivo; encontrei uma prescrição precoce de reposição hormonal, feita no momento errado, ignorando que meu corpo reagia ao medo e ao isolamento.

Por noventa e nove dias, o sangue parou. O que parecia um alívio era, na verdade, um silêncio forçado. Após esse período, o quadro regrediu de forma violenta para novos ciclos irregulares e fluxos hemorrágicos exaustivos. Eu voltava a perder muito sangue em episódios que drenavam minha energia. O preço dessa intervenção foi um pedágio físico severo: ganhei seis quilos rapidamente, fui assolada por enxaquecas que martelavam as têmporas e sofri com inchaços severos. Ao decidir parar, vivi minha primeira e vitoriosa desintoxicação. Durante seis meses, meu corpo recuperou o equilíbrio: perdi o peso ganho, recuperei o bem-estar e senti-me limpa. Embora o fluxo continuasse irregular — às vezes sumindo por sessenta ou noventa dias e retornando em torrentes de dez dias — havia uma saúde inerente naquela retomada.

A insistência do protocolo, porém, é implacável. Oito meses depois, surgiram os fogachos e a insônia. Tentei cápsulas de amora, mas o tempo de adaptação foi curto diante da pressão clínica. Mesmo sob monitoramento constante, realizando todos os exames de rotina que apontavam baixas hormonais, fui convencida a uma segunda medicalização. Seis meses depois, o peso subiu novamente em dois quilos e os desconfortos retornaram, retenção de líquido,  dores no corpo,  fadiga,  crises constantes de enxaqueca. Um ano depois, enfrentei uma cirurgia de vesícula. Ao completar um ano e três meses desta segunda fase de intoxicação, eu estava com todos os sintomas acentuados e uma sensação nítida de envenenamento sistêmico, culminando em crises de enxaqueca em intervalos curtíssimos. O sinal mais perturbador era a transpiração: eu exalava um suor químico, excessivo e estranho, um grito de um corpo que lutava contra a substância que deveria "curá-lo".

Foi nesse limite que resgatei a sabedoria que recebi em 2012, na Índia. Lá, um médico tradicional já havia prescrito meu mapa para uma maturidade fisiológica: o Shatavari (Asparagus racemosus),  cujo nome significa "aquela que possui cem maridos", tônico rejuvenescedor que equilibra os hormônios e nutre os tecidos reprodutivos com fitoestrógenos naturais. Suas raízes são ricas em fitoestrógenos que não "impõem" uma taxa ao sangue, mas nutrem o sistema reprodutor, hidratam os tecidos e equilibram o fogo hormonal de dentro para fora, respeitando a fisiologia da mulher. O outro é o Ashwagandha (Withania somnifera),  a força do cavalo, é uma erva adaptógena, o que significa que ela não "anestesia" o sistema nervoso como um ansiolítico, mas o treina. Ela modula o eixo do estresse, reduzindo o cortisol que rouba nosso sono e nossa densidade óssea, devolvendo ao corpo a capacidade de se autorregular frente às crises que a vida impõe e o O Triphala, para ser utilizado por pelo menos 60 dias ao ano, que é uma combinação milenar para limpeza de toxinas (ama). É uma fórmula milenar composta por três frutas sagradas (Amalaki, Bibhitaki e Haritaki) que trabalham em sinergia absoluta para limpar as toxinas acumuladas (ama) nos tecidos profundos. O Triphala regula o fogo digestivo e limpa os canais de absorção do corpo. Sem ele, um organismo intoxicado pela síntese química é como um terreno impermeável: nada entra, nada cura. As facilidades e os preços dos importados no Ocidente me fizeram descontinuar esse saber por diversas vezes, tentando substitutos que nunca alcançaram a raiz que o real atravessa.

Há sessenta dias, retomei o Shatavari para me libertar do sintético. Há trinta, o Triphala iniciou a faxina necessária e, há apenas três dias, o Ashwagandha devolveu meu eixo. Dez dias após abandonar o veneno sintético, minha transpiração finalmente voltou ao normal. O bem-estar retornou com uma facilidade de viver que nenhuma síntese foi capaz de simular. Ficou claro para mim que o hormônio sintético mais me prejudica do que ajuda; o balizador utilizado era apenas o alívio dos fogachos, no entanto, isso era uma miopia similar àquela de quem me medicou. No meu caso, houve uma sobrecarga severa no organismo. Provavelmente, se essa memória do atendimento médico lá na Índia não tivesse voltado à minha reflexão, eu estaria ainda normalizando os malefícios da medicação hormonal sintética. Mais do que isso: os resultados dos meus exames pós-reposição indicavam uma "boa saúde" e taxas hormonais desejáveis segundo o protocolo médico, mas o "pulo do gato" da minha reflexão é a constatação de que, apesar desta tal saúde protocolar, minha densitometria óssea estava mais complicada se comparada aos resultados anteriores à reposição — ou melhor, à intoxicação hormonal.

Por toda essa narrativa e muito mais, decidi produzir este manifesto. Ele é sobre autonomia política. Não ignoro os exames; eu os cumpro todos com o rigor de quem zela pela própria vida. O problema não é a ciência, mas a escuta pautada exclusivamente no diagnóstico da "vida-doente". O que quero dizer com isso? Que a partir do momento em que o climatério passou a ser patologizado sob o nome de perimenopausa, passamos a viver uma medicalização do que deveria ser apenas um momento de transição. Talvez o caminho fosse sobre suplementações mais assistidas, para que o corpo se adapte gradualmente a uma menor produção hormonal enquanto o sistema reprodutor prepara o encerramento do seu ciclo. O que enfrentamos, porém, é uma biopolítica do silenciamento: um sistema patriarcal que só tolera o corpo feminino enquanto ele é produtivo ou reprodutivo. Quando saímos dessas caixas, somos lidas como engrenagens gastas que precisam de "ajuste" hormonal ou sedação química. O meu suor estranho e químico não era apenas um efeito colateral; era o grito de revolta da minha carne contra a colonização do protocolo da biomedicina. O sistema não quer que sintamos o climatério, porque um corpo que sente é um corpo que não pode ser totalmente controlado. É por isso que ginecologistas leem densitometrias como sentenças de falência e distribuem antidepressivos como se a nossa transição fosse uma patologia mental. O objetivo final é a docilidade.

Os números de desistência das terapias hormonais — que em diversos estudos ultrapassam os 50% — são, na verdade, números de resistência. São corpos de mulheres que, como o meu, expulsam protocolos engessados que tentam reduzir uma biografia complexa a uma tabela de taxas hormonais. Reivindico o direito de habitar minha própria carne sem o veneno da síntese imposta antes da hora. A saúde não está na submissão à norma, mas na coragem de retomar a soberania sobre o próprio corpo. O climatério é o meu degrau, não a minha queda. E daqui, eu escolho a clareza da minha natureza sobre a névoa da intoxicação. Porque outro problema da reposição é justamente essa névoa — a mesma que o médico promete curar, mas que a própria medicação ajuda a instaurar.






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