A performance de Sebastian Santamaria inaugura-se na fricção de um curto-circuito estético e psíquico. No centro da cena, o corpo do artista oferece-se ao olhar sob uma nudez calculada e tensa: veste uma camiseta de tamanho médio com estampa de cavalos que, ao mesmo tempo em que resguarda algo, desvela a carne exposta. Nos pés, o peso bruto de botas rosas de cowboy, despidas da vaidade heróica de qualquer estrela ou adorno no cabresto. Deste corpo-limiar, risca-se o espaço: o círculo onde o acontecimento se desenrola. Essa arena circular rasga a distância higiênica do palco clássico e convoca o público à condição de testemunha imediata, onde cada espectador se descobre livre e desamparado para inventar o próprio vetor de visão diante da criatura que se anuncia.
É nesse perímetro sagrado e profano que a obra desfere seu golpe contra as estruturas de quem assiste. O círculo transmuta-se em um tabuleiro de projeções, onde o olho busca desesperadamente as âncoras de um léxico familiar, apenas para naufragar na impossibilidade de fixar uma forma. Em uma cultura irremediavelmente colonizada pelo olhar do Outro.
A metamorfose, então, desce à matéria pelo sopro mais sutil. Uma respiração quase imperceptível começa a tatear o silêncio, alterando seu compasso até acelerar-se na coreografia convulsiva de um parto. O corpo fratura-se e debate-se contra o chão, borrando as fronteiras entre o feminino e o masculino, que se enlaçam até perderem os contornos do binarismo. É nessa dor criadora que a criatura dança a sua autonomeação: o nascimento de La Caballota. Ela prescinde da bênção do dicionário do mundo; é o próprio movimento que grava o seu nome no espaço.
Uma vez parida, a criatura instaura o império da sedução. Um magnetismo tecido pelo fio da voz, pela lâmina do olhar e pela sinuosidade dos gestos, remetendo o público às cartografias infinitas da sexualidade humana, redimida de suas amarras históricas. O clímax desse jogo litúrgico materializa-se na carne de um bolo de aniversário que circula de mão em mão pela plateia. Ao intimar a plateia a devorá-la, a criatura dissolve as barreiras entre o eu e o mundo. Comer do bolo é comungar da heresia, engolir a insubmissão ao Outro e celebrar o nascimento do impossível. No fundo, a performance não nos convida à contemplação: ela nos obriga a uma fissura incontornável, empurrando-nos ao precipício de nos depararmos com uma nomeação que não temos.
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