Se você tentar agradar todo mundo




O filme La Belle Verte (Planeta Livre), dirigido por Coline Serreau, apresenta uma sociedade utópica em um planeta distante onde os habitantes vivem em total harmonia com a natureza, desconhecendo o dinheiro, a hierarquia e as vaidades artificiais. A trama se desenvolve quando Mila, uma das habitantes desse mundo evoluído, decide viajar até a Terra para investigar o estágio atual da humanidade, gerando um choque cultural que revela o absurdo das convenções sociais contemporâneas através de um olhar puro e crítico.

Recentemente, uma cena específica dessa obra trouxe à tona uma reflexão profunda sobre o comportamento humano. No trecho em questão, a visitante Mila questiona uma terráquea sobre o uso do batom e, ao ouvir que o adereço serve para chamar a atenção e agradar ao outro, conclui com uma observação desconcertante: deve ser exaustivo tentar agradar a todos o tempo todo. Essa percepção espelha um sentimento de desconexão que muitas vezes ocorre quando se busca a aprovação externa em detrimento da própria identidade. Percebe-se que, nessa tentativa de atender a expectativas alheias, por mais que o esforço seja hercúleo, o resultado mais frequente é o desagrado para consigo mesma.

Essa experiência narrativa estabelece um paralelo direto com a crítica central do filme ao "despertar" ou ao processo de "desconexão" dos sistemas artificiais. Assim como Mila utiliza seus poderes para desconectar os terráqueos de seus condicionamentos mentais, permitindo que eles ajam com uma sinceridade bruta e libertadora, o reconhecimento da própria exaustão serve como um mecanismo de ruptura. O filme sugere que a cultura moderna é uma construção de máscaras e ruídos, e o paralelo reside justamente na coragem de remover essa maquiagem social. Ao confrontar o uso do batom — um símbolo da estética imposta — a obra critica como a humanidade se tornou escrava de protocolos de beleza e comportamento que não alimentam a alma, mas apenas sustentam uma engrenagem de validação mútua vazia.

Ao repensar e ponderar as próprias ações sob essa ótica, compreende-se agora que o caminho mais saudável é agir na medida do possível, respeitando o próprio campo de possibilidades. O entendimento atual é de que sacrifícios excessivos não conduzem a lugar algum, exceto à decepção. Mais do que uma busca por harmonia, esse ímpeto de agradar pode estar relacionado a uma forma de controle passivo; uma tentativa de fazer o impossível para manter o outro por perto, o que invariavelmente culmina em frustrações. A nova postura consiste em deixar a vida fluir com naturalidade: se o modo de ser agrada a alguém, é positivo; se não agrada, é igualmente aceitável, pois é essa a dinâmica que rege o universo.

Comentários

Anônimo disse…
Me identifiquei com a frase
"controlar de forma passiva" pois tentando ser bonzinho com todos eu quero na verdade é controlar a todos.

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