E Ela dança
E Ela dança
Saudações, meus caros.
Escrevo sob a batuta desta chuva — uma abundância que não apenas molha, mas que parece querer dissolver as arestas do mundo. Foi inspirada por esse ritmo líquido que decidi inaugurar o ano com uma pergunta que talvez lhes pareça um tanto invasiva: quanto tempo faz que você não dança?
Eu? Creio que acabei de fazê-lo. Foi um movimento involuntário, um desajuste entre o corpo e o chão.
Há quem fuja, com um pavor quase infantil, da doce e perversa arte da comunicação. Seria o medo da responsabilidade de sustentar a própria pele? Tolice. A comunicação não precisa da voz para se anunciar; ela é uma criatura que respira nos intervalos, muito além da gramática.
Diga-me, leitor: lembra-se daquele dia em que a sua boca disse "sim" enquanto o seu espírito gritava um "não" absoluto? O que o fez desertar da própria verdade? Quais sombras operaram seus lábios naquela tarde? Você realmente acreditou que o Outro aceitaria suas "mentiras sinceras" como se fossem relíquias? Se é que a mentira, essa névoa, admite o peso da sinceridade...
Cuidado. Estamos todos sob uma vigilância silenciosa. Sejamos nós as lentes ou os observados, a verdade é uma fugitiva que deixa rastros indeléveis: está na hesitação da mão, no sarcasmo que corta o ar como uma lâmina fria, no sonho que nos assalta sem pedir licença, no ato falho que é, em última análise, o nosso único acerto.
Quem governa essa força que insiste em transbordar? O consciente, esse carcereiro zeloso, munido de filtros e moralismos de vitrine? Se você ainda prefere o conforto dessa máscara, prossiga; mas não se espante quando a coerência lhe cobrar o preço. Se a dissonância ficar insuportável... go away. Eu tenho exercitado essa fuga ultimamente, como quem abandona um teatro antes do último ato.
Porque Ela, Sakti, não espera. Sakti é a potência que range nos ossos, a energia que destrói para poder criar. Ela é a dança cósmica que ignora nossos pequenos pudores sociais. Enquanto você se preocupa com a etiqueta da fala, Sakti já moveu as placas tectônicas da sua alma.
E você, caro leitor, ainda insiste na ilusão de que não sabe dançar? De que não sabe se comunicar? A dança está acontecendo agora, no modo como você evita ou sustenta este olhar que lhe lanço através das palavras.
Mas não se apresse em responder. O silêncio que se segue a uma pergunta é, muitas vezes, a única resposta honesta que nos resta. Escute a chuva. Ela parou? Ou foi você quem parou de ouvir? Sakti continua o movimento, indiferente à nossa paralisia. Eu, por minha vez, apago a luz e deixo que o escuro termine de escrever o que a claridade não ousou dizer.


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