Godofredo, o garoto sensível



Godofredo, o garoto sensível


Queridos Leitores!

Alguns habituados com os meus inícios de texto sabem que ofereço minhas fontes de inspiração logo no começo, mas mesmo para você que não está habituado, vamos ao que interessa.

Neste sábado saí de um Sarau fervilhando de ideias. "Inspirada" , resolvi assistir o documentario do Manoel de Barros "Só dez por cento é mentira". Achei genial esse título e mais ainda o documentario do qual não vou me demorar nos detalhes agora. Garanto que vale super a pena assistir. Sem acasos, depois do documentario veio à luz este texto que vos apresento: Godofredo, o garoto sensível. Aproveito a inspiração para lançar a pergunta: Será que no meu caso só dez por cento é mentira?

Bem, Godofredo era filho de uma mulher humilde, de garra, nordestina, cheia daquela força feminina necessária para criar três meninos sozinha. Quem sabe das renúncias que foram feitas, das escolhas que ela teve de fazer, dos erros, dos acertos, das responsabilidades que ela mesma tinha sobre a separação inevitável, a dissolução da família. O pai de Godofredo, descendente de orientais, era dado a casos amorosos. Também era muito trabalhador, um batalhador, daqueles preocupado em “vencer na vida”. Era não mais, não menos mais responsável do que sua ex esposa. Escolheu abandonar a família quando o pequeno Godofredo tinha apenas 5 anos.

Talvez seja nesse momento que Godofredo assumiu o papel de pequeno pai, afinal ele era o mais velho. O companheiro de sua mãe como é até hoje.

Quando criança ele sofria de bronquite, desordem comum às crianças que vivem em lares conflituosos. Se pensarmos na importância de trocas que existe na respiração, podemos traçar um paralelo na importância das trocas no ambiente familiar. O que a falta pode causar no campo das emoções, no aparelho psíquico.

Godofredo era um menino franzino, calado, ensimesmado, nada sexy, nada popular e até mesmo desengonçado. Desde cedo chamava atenção das menininhas. Sua beleza estava talvez na sensibilidade. Bem, ser um homem sensível não era uma coisa permitida numa atmosfera de "macho alfa dominante". Claro, isso culminou em bulling e o pobre coitado teve até mesmo seu maxilar fraturado pelo macho alfa do colégio onde estudava.

Chegou a vida adulta sabe-se lá como. Colecionou idas e vindas em consultórios terapêuticos, tomou medicamentos "tarja preta” e passou até mesmo por uma depressão. Foi isso que o motivou "buscar o caminho espiritual". Frequentava todos os tipos de propostas, afinal nesses locais é bem comum encontrar uma quantidade significativa de mulheres. Foi numa dessas aventuras que Godofredo conheceu Perséfone, uma mulher um pouco mais velha. Uma escritora que havia vivido sete anos no Tibet. Praticante do Zen Budismo, vivia de forma simples e dedicada a meditação. Era uma leitora e estudiosa compulsiva. Sentia-se atraída pelos excluídos, além de ter um talento especial para escutar interessadamente o Outro. Tanto é, que certo dia alguém lhe confessou um crime. Ela era uma mulher de personalidade forte, muito ativa, provocativa, sarcástica, além de preservar uma eterna criança.

Perséfone percebeu a necessidade de Godofredo em falar mais do que ouvir, o julgou “um pouco fora de foco” como o personagem do filme do Woody Allen “Desconstruindo Harry”. Ele tinha uma exaltação do Eu, Eu isso, Eu Aquilo, Eu Vitima do mundo cruel. A maior queixa dele era em relação ao trabalho. Godofredo tinha de sair de sua condição de homem ilha e se relacionar com as pessoas, era isso que seu trabalho exigia. Parecia ser esse seu grande desafio, seu grande fardo.

Mesmo com suas dificuldades em se comunicar, ele expressava a voz interior de uma criança que aprendeu a ser sozinha e não sabia a diferença entre Ser e Estar só.

Ele tinha o hábito de averiguar o celular a todo momento enquanto estava na cia de Perséfone. Talvez ele acreditasse atender a demanda de mensagens e telefonemas “da mulherada” , porém, parece que a coisa não era bem assim. Ele não costumava ser gentil ou dócil nas demandas, muito pelo contrario, nas respostas que Perséfone presenciou, ele se portava de forma seca no trato com quem estava do outro lado, muitas vezes grosseiro, outras vezes ignorava mesmo. Algo que lhe proporcionava um certo “gozo”. Pode ser que ao destratar essas mulheres ele realizava sua “fantasia de vingança”. Vingança daquela que poderia representar a mulher que roubou o lugar de sua mãe. Pobre criança! Somente os pais podem resolver seus próprios problemas.

Perséfone se angustiou com a relação, um dia ela se sentiu como se fosse uma opção no cardápio de pizza. Havia vantagem alguma em ser a preferida daquele dia, pois, no outro certamente não seria. Ela foi mais além, se colocou no lugar daquelas que estavam atrás dos telefonemas e mensagens. Daquelas que ainda se submetiam a grosserias, as relações liquidas como teoriza Bauman. Sujeitar-se aqueles que usam a palavra liberdade deliberadamente para ter comprometimento algum nas relações é prejudicial ao feminino gênero e energia. A questão é: por que Perséfone e todas as outras ainda se submetiam a esse tipo de tratamento? Por que se permitiam?

Enfim, ela desistiu dele. Achou que era o momento de trilhar caminhos antes nunca trilhados. O presente do destino foi conhecer o lindo vizinho que cuidava de um orquidário. Homem gentil, de natureza tranquila, parecia ser mais responsàvel. Parecia também ter vindo de um lar mais harmonioso. Uma cia agradável que proporcionou a Perséfone momentos deliciosos.

Certo dia, esse clima foi quebrado com o reaparecimento de Godo. Uma surpresa para Perséfone. Ele tinha “um ar” diferente. Algo havia se modificado, mas o que? Seria verdadeiro? O camarada voltou cheio de amor pra dar, nem parecia aquele mesmo personagem similar, digo, apenas similar ao Brandon do filme Shame. Interpretado pelo lindão do Michael Fassbender, que não é o caso de Godo. Bradon é um publicitario bem sucedido, sujeito aparantemente normótico que tem sua rotina quebrada quando inesperadamente sua irmã decide morar com ele. Ele é distante dela e insiste em Ser, mas ela na tentativa de aproximação acaba por comprometer sua vida sexualmente compulsiva.
Perséfone gostava muito da cena onde a irmã de Brandon canta muito bem o New York, New York do Frank Sinatra. As cenas que se seguem dão luz a sombra do personagem e seu imenso vazio, a permanência na margem de Si Mesmo. Isso sim era muito parecido com Godo.

Apesar de tudo estar aparentemente colorido com o reaparecimento de Godo, Perséfone ainda estava angustiada, indecisa. Afinal, valia a pena apostar na volta de Godo? Valia a pena esquecer que conheceu um cara mais bacana e sem tantos problemas como o Godo? Deveria ela esquecer que Godo era frio e distante?

Sim, ela apostou em Godo e se sujeitou mais uma vez aos caprichos dele. Confundiu trilhas e trilhos que resultou mais uma vez em desolação. Se sentiu responsável pelas escolhas, chorou horrores e seguiu ao pé da letra a seguinte frase: é melhor um fim pavoroso do que um pavor sem fim. Nem preciso dizer que mais uma vez ela desistiu de Godo e resolveu de fato não mais esperar por ele. Apesar de algumas mudanças, ele era o mesmo, nada sensível, frio, calculista, à margem de si mesmo. Um perfeito retrato do sujeito narcisista da sociedade moderna.

Perséfone optou por relações saudáveis, encontros com homens maduros, mais conscientes da alegria e da dor presentes na vida. Optou por estar ao lado de alguém que como ela acredita no amor que se constrói no dia a dia. Alguém que como ela que resolveu arriscar mesmo diante de incertezas. Atualmente ela está escrevendo seu livro sobre relacionamentos, há muitas teorias possíveis se tudo isso fosse verdade, afinal caro leitor, será que somente dez por cento é mentira?



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