Cordel do dia em que saí de casa

 


O DIA EM QUE SAÍ DE CASA

I

Acordei com um agito

No começo do clarão

Fui buscar ervas na horta

Sentindo uma agitação

Ouvindo passos e vozes

Que não eram minhas, não.

II

Virei até erva brava

Pois a voz me comandava

Peguei a foice afiada

Pois a mente delirava

Fui logo pro laboratório

Onde a ureia eu misturava.

III

Minha mãe, tal crocodila,

Meu trabalho destruía

Armei um golpe certeiro

Pra findar a agonia

Se o vento não me atrapalha

Ali mesmo ela caía.

IV

Fui caçado pelas pedras

Num plano de traição

Acordei lá na Colônia

Sem saber da duração

Do tempo que ali passei

Em total alienação.

V

Uma moça me explicou:

— "Foi estado de torpor"

Lembrei do dia da fuga

De todo aquele horror:

Polícia, banho gelado

E o choque causador.

VI

Foi foice, grito e ataque

No meio da confusão

Teve banho de água gelada

E o tal "sossega-leão"

Virei quase um vegetal

Sob o efeito da injeção.

VII

Na Colônia achei beleza

Na escultura de juá

Crio joias de areia

Que ninguém mais saberá

Pois o segredo da química

Guardado comigo está.

VIII

Recebo meus familiares

Que cigarro sempre têm

Se as vozes mandam expulsar

Eu expulso, mas trato bem

Pois sou grato pelo fumo

Que da mão deles provém.

IX

Uso sempre três chapéus

Pra proteção garantir

Com minha saia enfeitada

Pois alguém há de vir

Pra cópula mais perfeita

Que Ele possa permitir.



In memorium a meu tio avô Zuzu que viveu boa parte de sua vida na Colônia Juliano Moreira. 

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