O ATRAVESSAR DO ESPELHO: MEU AUTO TESTEMUNHO EM SI MENOR



Antes que a canoa perdesse os remos no oceano de sentidos, a herança já estava escrita em uma teia de afetos esgarçados — rastro de uma linhagem onde o cuidado desaprendera o seu nome. Naquela raiz antiga, o mito familiar fincara amarras, ramificado no enxame dos seis irmãos da minha avó. Havia o espectro de um antigo noivo que trazia o amor dividido em três altares. Diante da recusa altiva dela, ele bateu-lhe à porta montado em cavalo branco, vestindo apenas cueca branca. Minha avó recusou o príncipe. Minha mãe agigantava o episódio, vangloriava-se do mito, repetindo que o sim teria escrito outra vida. Mas a escolha fora o meu avô: um viúvo que, para recebê-la, reformou a casa inteira para erguer ali sua segunda família.
Desse solo, vi minha mãe jovem, desprovida de arrimo e órfã de mãe aos oito anos. Sem suporte, ela repetiu o que não fora simbolizado: o gélido metal de uma entrega que se fez música na sentença si-dó-mi. O desamor tornava-se o meu destino. O desejo dessa mãe claudicava na ilusão das telas. Ao escolher meu nome, confessou a motivação de capturar "o rosto mais bonito da TV". O real por trás do tubo, contudo, trazia o avesso: a atriz dona daquela face carregava exatamente o mesmo nome da minha avó. Como primogênita, nasci sob essa marca. Logo depois, vi o fruto segundo daquela carne fazer-se moeda de troca no mercado do abandono. Daquela partida, guardei a imagem que o tempo não gastou: vestido com um pijaminha de carrinhos, de pé no banco de trás de um carro, meu irmão se distanciava. Sorria e me chamava de Ane, enquanto o mundo desabava em silêncio.
Logo em seguida, o vínculo com a origem estilhaçou-se também na vertente paterna. Meu pai, homem negro de uma família miscegenada e marcada pelo racismo, trazia o espírito etílico de quem fora abandonado pelo próprio pai — o grande amor de minha avó, que resolveu retornar para sua outra família e fixar-se no Rio de Janeiro. Avançado na cronologia, mas estagnado no tempo, meu pai empalidecia diante da juventude da minha mãe, envolvida com ele ainda na adolescência. Desse sobressalto eu nasci. Atado a um cordão antigo que ditava seus passos, meu pai assistiu ao meu aparecimento no mundo sem ferramentas para acolhê-lo. Dele, guardei o eco do veredicto materno: "só sabe fazer uma letra 'o' quando senta a bunda na areia". 
Esse caos de origem desenhou minha cartografia errante. O rastro partiu do silêncio opulento das chácaras dos ricos, deslizou pela retidão planejada de Indianópolis e escondeu-se nos recônditos da zona leste, até que a infância se fizesse carne nas esquinas da Vila Mariana. Ali, com a loucura a rondar o cotidiano, assisti minha mãe envolver-se com uma mulher. Formamos uma nova engrenagem: ela e seu filho, minha mãe e eu. Naquele arranjo que desafiava as regras do mundo, eu gastava os dias tentando alinhar cartas simétricas sobre a mesa, erguendo paredes contra o colapso doméstico. Na solidão da casa, tornei-me a sentinela precoce que geria o caos com o rigor de quem equilibra balanços impossíveis.
Houve um tempo em que o desejo buscou a tinta e o papel na vocação primeira pelas Letras. Sem suporte para a travessia, os passos desviaram-se para a Administração de Empresas. Assumi o papel de administradora das moedas desse abandono. No mundo corporativo, exerci a gestão com a precisão dos números. Sob a mesma lógica de ascese, os primeiros relacionamentos repetiam a vigília constante — tentativas de manter tudo de pé para não sucumbir ao desamparo que corria sob as lembranças.
Transitei, então, para a busca por um contorno interno, sem medicações. No consultório de um psiquiatra, as mandalas ofereceram a primeira dobra; submeti o sopro ao transe da respiração holotrópica, caminhos que desaguaram nos labirintos da Transpessoal. Junto ao mergulho, operou-se o resgate do Yoga, cujo estudo do Bhagavad Gita ocorrera na minha adolescência. Esse retorno marcou a separação de um laço longo que já não comportava o adiamento do meu querer. Tornei-me professora de Yoga. Foi nesse novo tempo que vivi outra relação; contudo, a sombra da mãe do outro definiu o limite, reatualizando o impasse da minha raiz.
A travessia conduziu-me à Índia. No retorno, sob o teto da minha mãe, o sufocamento daquela presença precipitou a urgência. Ali, inaugurei meu primeiro tempo de escuta. Em paralelo, lia o mundo em silêncio e ascese. No isolamento da prática, buscava a geometria da paz, tentando apartar o egoísmo da entrega. Era o tempo da vigília sobre os opostos da alma, da tentativa de ser a testemunha pura — a consciência intocável que assiste ao próprio incêndio sem se queimar. Submetia o corpo ao rigor escultural de formas que buscavam a simetria do sagrado, mas a alma sabia que a verdade não cabe na rigidez da pedra. No deserto desse desamparo, guardei o grão de café: o talismã de ternura que meu avô materno e dócil depositava em minha boca, pequena semente de dignidade que impediu que a história secasse. 
O homem que me escutava deparou-se com a fronteira do próprio espelho. Ali, erguia-se o guardião da pedra seca: uma escuta que exigia a simetria da partitura, no entanto eu ensaiava meus improvisos, a consciência de um movimento sincopado. Diante do sismo, ele preferiu o recuo, mas eu ainda não conseguia fazer um solo.
O antigo desejo de tecer o mundo em tinta e papel renasceu na melodia de uma outra língua, conquistada na disciplina de quem aprendia a arte de relaxar a alma. Aportei na margem de um segundo tempo de escuta. Ali, onde o analista sustentava sempre uma caneca de café entre as mãos — devolvendo-me o calor daquela semente antiga —, o amor ofereceu-se como mediação possível através de um encontro feito de palavras duras e difíceis. Essas pedras angulares permitiram esculpir a elaboração dos lutos pendentes — da linhagem, do irmão e dos laços que haviam ficado pelo caminho. Desci do pedestal da sentinela. Diante da vertigem do deserto, o rastro sonoro revelou uma convocação que buscava resposta onde o espelho primeiro apenas esquivava.
No desmanchar do que não servia mais,  o corpo finalmente cedeu ao fluxo, eu já anunciava minha nota fundamental: o eco de um dizer infantil, "si meior", que se transmutava no si menor — a tonalidade exata onde a melancolização encontrou sua maior potência rítmica. Chorei, dessas lágrimas a dívida se fez texto no atravessamento do espelho. O cenário de imagens ruins se fratura pelo impacto de um gesto: o momento em que Nina Simone interrompe a melodia. Naquela fissura de "Feelings", autorizei-me enfim a faltar. 
"I'm free now", repetiu o Morphine.
A harmonia alterou-se: o si-dó-mi da perda deságua para o si-dó-ré da passagem — uma nota que não fecha, mas caminha com o gesso; o compasso que anunciou que o País das Maravilhas não é um tabuleiro a ser ordenado, mas a síncopa do próprio caminho.
Hoje, além do ofício da psicanálise, me tornei dançarina de jazz; vivo o meu contratempo. Nele, a carne explode e flutua contra a rigidez do compasso. No jazz, o si menor não é uma queda livre, mas a gravidade que o corpo arrasta e lança no ar para criar a síncopa. O peso da precocidade e o rigor dos tempos de sentinela não se apagam, mas cedem ao passo que se joga no vazio: há de se saber improvisar com o erro. Assim, essa cartografia psíquica segue o swing — os isolamentos no território de balanço, na suspensão do salto, do contrair e explodir, e, principalmente na improvisação artística.


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