Neste 08 de março para muitos além

 


O 08 de março se ergue sobre o chão duro das fábricas e o sangue das operárias de 1917, quando cerca de 90 mil trabalhadoras russas tomaram as ruas de Petrogrado sob o lema "Pão e Paz", um estopim que não apenas marcou a luta por direitos, mas acelerou a queda do czarismo e a própria Revolução Russa. Essa força histórica, no entanto, hoje esbarra em uma barreira mais sutil e persistente: a arquitetura do laço social. Como bem pontuava Calligaris, a misoginia não é um surto isolado, mas uma pedagogia de séculos que molda a subjetividade masculina para temer e, consequentemente, odiar o que não consegue controlar. Esse aprendizado de ódio infiltra-se na cultura até convencer as próprias mulheres de que a rivalidade entre elas é instintiva, quando, na verdade, é um dispositivo político de fragmentação. O sistema nos ensina a olhar para o lado com desconfiança para que não olhemos para cima com fúria, ignorando que o ritmo atual de progresso, segundo a ONU, levará 300 anos para atingir a igualdade plena.

Somando-se a essa estrutura, Rita Segato nos revela que essa pedagogia do ódio se materializa na visão do corpo da mulher como o território último a ser colonizado. Para Segato, a violência e o controle não são questões de desejo, mas crimes de poder e de "mandato de masculinidade", onde o corpo feminino é tratado como um mapa de conquista para reafirmar a soberania masculina perante seus pares. Nesse cenário, o poder é ocupado por uma legião de homens imaturos que, incapazes de lidar com a alteridade, recorrem à adjetivação vazia como ferramenta de manutenção de privilégios. Chamar uma mulher de "maravilhosa" ou "guerreira" tornou-se o verniz de uma estrutura que, no Brasil, ainda permite que mulheres ganhem 20% menos que os homens, mesmo possuindo maior escolaridade. É o elogio que silencia, a gentileza que substitui o direito e a manutenção de uma "guerra civil" íntima onde o reconhecimento verbal serve apenas para evitar a reforma real dos atos.

O cansaço feminino nasce desse descompasso: habitar um mundo que celebra a mulher no discurso enquanto, na prática, a pune com a infantilização de seus líderes — que ocupam mais de 80% das cadeiras no Congresso — e a perpetuação de um ódio cultivado sob o disfarce de "natureza". O 08 de março é, portanto, a denúncia de que flores e adjetivos não reparam o fato de que a cada 6 horas uma mulher é vítima de feminicídio, fruto de um laço social que, sob a lente de Segato e Calligaris, ainda vê o feminino como um território a ser domado e não como uma existência livre.

Concluímos, portanto, que este é o dia de confrontar o abismo entre o discurso e a realidade. A data exige que olhemos para além da superfície dos elogios e identifiquemos a persistência de uma lógica colonial que ainda tenta circunscrever o corpo e a mente feminina. A exaustão das mulheres não é um cansaço biológico, mas o resultado de um esforço hercúleo para romper o mito da rivalidade e gerenciar a imaturidade narcísica de quem ocupa o poder, mas se recusa a dividir o mundo. A celebração real se manifesta na desconstrução desse laço social doente e na exigência de atos que transformem a "maravilhosa" em uma cidadã com direitos plenos e segurança física. Enquanto o respeito for condicionado à utilidade ou à beleza, o 08 de março continuará sendo, primordialmente, um campo de batalha subjetivo e político contra o mandato de masculinidade que ainda nos governa.

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