: 📜 O Herdeiro do Ressentimento


Conheci-o numa daquelas encruzilhadas do tempo, onde as horas parecem apodrecer antes mesmo de passarem. Ele possuía a estatura de um monumento e uma voz que reverberava como o bater de um sino fúnebre; o simulacro perfeito do homem viril que habita o imaginário vulgar, mas cuja grandeza terminava na superfície da derme. Sob sua máscara de vigor, rastejava uma maturidade atrofiada. Após um approach de melancolia trágica, ele desnudou sua alma: um inventário de mágoas contra os pais idosos e um ódio latente pelo irmão que lhe negava o fardo da caridade. O ressentimento não era apenas uma emoção; era o ácido que desintegrava o seu próprio ser.

A bebida era sua amante insepulta, uma companheira de quem ele jamais se divorciaria. Observei, com um calafrio, a simbiose mórbida daquele casal. Eu suportaria ser o vértice desse triângulo espectral? A pergunta era vã, pois minha alma já sussurrava a sentença. Quando ele me chamou de "maravilhosa", a palavra ecoou como um epitáfio vazio. Para homens de tal estirpe, o elogio é uma esmola lançada ao abismo, uma moeda de cobre com a qual acreditam comprar o direito de posse sobre o espírito alheio.

Em dado momento, suas mãos trêmulas buscaram domar meus cabelos. Rejeitei o toque com a repulsa de quem protege uma heresia: meus fios são uma teia de caos por natureza, e eu não nutria o menor desejo de ser "ordenada" por sua mão vacilante. Como minha constituição física — privada da vesícula e seus filtros — já protestava contra os vapores etílicos que o circundavam, anunciei meu mal-estar. Foi então que o horror se manifestou. Com o orgulho de um monarca de cemitério, ele bradou estar abismado com a própria potência seminal; acreditava, em seu delírio, ter fecundado meu ventre na brevidade daquele encontro. Bateu no peito como quem conquista uma glória maldita. Meu lado sombrio, despertado por tal audácia, respondeu com a gelidez de uma tumba: eu não moveria um átomo para manter aquele bebê de Rosemary. Por que desejaria eu a descendência de um espectro? Quem disse que eu aceitaria o jugo da criação?

A agonia da partida foi inevitável. Ele me seguiu até o umbral de minha casa, implorando por uma última libação, uma saideira que era, em essência, o seu combustível de sobrevivência. Ofereceu-me o cálice com uma ausência de alteridade que beirava a psicopatia. Recusei com o nojo que se tem de um verme.

Dentro de meus domínios, a farsa persistiu. Não haveria o ato da carne, apenas o suplício da palavra; essa seria a minha vingança. Mergulhado em um onirismo juvenil que seus cinquenta anos tornavam grotesco, ele inquiriu sobre o nome da progênie imaginária.

— Que infâmia! — sibilei. — Existem abismos mais nobres para se desejar do que este.

Prometi-lhe que amaldiçoaria a criança desde o primeiro suspiro. Sem hesitar, ele sentenciou que me internaria. Questionei-o, então, sobre o futuro: o que diria à criança quando ela buscasse a imagem da mãe? Com a serenidade dos cruéis, afirmou que, sob as chaves do hospício, eu "melhoraria".

— Quem o garante? — desafiei. — Pode uma alma florescer no cárcere da vontade alheia? Eu sussurraria "eu te odeio" ao ouvido desse infante até que o ódio fosse seu único acalanto.

Ele recuou, balbuciando sobre a "pesantez" de minhas palavras. Contudo, o verdadeiro pavor não residia no que eu dizia, mas na calma absoluta com que ele aceitava a ideia de me enterrar viva em uma cela higienizada para satisfazer seu capricho de semente.

Ali, sob a luz mortiça, a constatação final revelou-se: ele não temia a minha vilania, mas a minha soberania. O monstro não habitava o meu útero. O monstro estava sentado em minha poltrona, exalando o odor da decadência e do álcool, convencido de que minha existência era apenas um apêndice em seu trágico e medíocre teatro de ressentimentos.

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