Dogmatismo a qualquer tempo
"Outro dia, entre palavras e afetos, uma amiga querida desenhou no ar a ideia de eu me converter ao judaísmo. O pretexto da conversa perdeu-se no tempo, mas em mim — germinada em solo católico de missas e ritos dominicais — a sugestão ecoou com uma ironia suave.
Converter-me? No agora, não busco novos portos ou batismos. Ecoa em minha mente o ensinamento de Swami Dayananda: 'Conversão é violência'. É um pensamento denso, uma semente que guardarei para florescer em outra postagem.
Toda essa inquietação, porém, foi o adubo para algo que brotou do peito hoje: uma meditação sobre o sagrado, as amarras e o meu próprio 'religare'. Escolhi habitar filosofias de vida que não pedem licença a templos.
Descobri que a cegueira não escolhe credo. Seja sob o manto de uma religião ou sob a luz de uma filosofia, o dogma nos espreita no apego aos padrões, nas certezas que não respiram. O autoestudo é, então, o meu ato de vigília; a lanterna necessária para não tropeçar nas armadilhas da minha própria rigidez.
Novas promessas ou tradições ancestrais: tudo pode tornar-se cárcere se a mão que colhe não souber separar o joio do trigo. Entendi que a verdade é viva; depende do espaço, do tempo e do toque da aplicabilidade.
Pensemos na tábua dos Dez Mandamentos: outrora, um farol para humanizar o convívio nas areias do deserto. E hoje? Hoje, cabe a cada alma mergulhar em seu próprio silêncio para descobrir se essas leis ainda pulsam realidade. No fim, o mistério se resume a um gesto de liberdade: a coragem de discernir ou o conforto de render-se ao dogma a qualquer tempo."

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