Você está me agradecendo do que?


Você está me agradecendo do que?


Caros leitores, antes de mais nada, gostaria de recomendar uma obra cinematográfica de sensibilidade ímpar: O Exótico Hotel Marigold. Filmado no Rajastão, o filme é um convite estético e cultural para quem acalenta a pretensão de conhecer a Índia. A obra me despertou uma nostalgia latente, mas, nostalgias à parte, vamos ao que realmente interessa: o choque entre o que dizemos e o que somos.

Gostaria de compartilhar algo intrigante que vivenciei. Todas as vezes que eu solicitava algo a alguém na Índia, seguia o meu protocolo de civilidade ocidental e agradecia. No entanto, o que recebia de volta era um desconcertante: "Você está me agradecendo de quê?". Curtos, objetivos e precisos, os indianos me ensinaram através do silêncio e da negação. Diante da minha insistência em justificar o motivo da gratidão, a resposta era um banho de realidade existencial. Explicavam-me que, em sociedade, os pedidos podem ser atendidos ou não; ao cumprir um papel, o indivíduo apenas executa o que lhe cabe no fluxo da vida. Se um não o faz, outro fará, "se Deus assim quiser". O fato é que, quando fazemos o que tem de ser feito, a vida simplesmente continua. Não há iluminação extra por receber ou dar gratidão; a verdadeira percepção deve estar no coração, não no verniz das palavras.

Confesso que, nas primeiras vezes, interpretei essa postura como uma grosseria cortante. Mas, após refletir, passei a questionar a nossa própria estrutura social. Nós, herdeiros da colonização europeia e da etiqueta de corte, fomos treinados para o "obrigado" como uma moeda de troca. Somos o país do "homem cordial", onde a polidez serve, muitas vezes, como uma máscara para esconder que ainda supervalorizamos o próprio umbigo. Será que realmente nos enxergamos como comunidade? Ou será que usamos a gratidão apenas como um elemento para acariciar o ego e manter as aparências de uma "bondade" que não se sustenta no olhar?

Enquanto o indiano é grato ao essencial — ao alimento, ao Ganges, à existência —, nós parecemos mais preocupados em sermos "sociáveis". Recordo-me de quando, no Ashram do Dayananda, eu ajudava o querido monge Swami Subash a servir refeições. Servi muitos compatriotas brasileiros que me dirigiam agradecimentos efusivos, mas cujos olhos jamais encontraram os meus. Ali, a hipocrisia da nossa "polidez herdada" ficou nua: agradece-se ao serviço, mas ignora-se o ser humano. Naquele momento, senti-me alimentada não pelo "obrigado" vazio, mas pela transcendência de ver o outro nutrido.

Diferenças culturais à parte, quando olhamos o humano como humano, percebemos que a necessidade de receber e dar agradecimentos está mais ligada à nossa insegurança e carência de validação do que a uma conexão real. No fim das contas, talvez essa nossa obsessão pela gratidão polida seja apenas o nosso jeito elegante de fingir que nos importamos com o próximo, enquanto, secretamente, estamos apenas aliviados por alguém ter feito o trabalho que nós, no fundo, achávamos que não era nossa obrigação fazer. Que sorte a nossa termos inventado a etiqueta; do contrário, seríamos obrigados a praticar a honestidade — e isso, convenhamos, dá um trabalho que nenhuma "obrigação" europeia parece disposta a cobrir.

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