Escrita invisível

Escrita invisível 

Todos os dias quando eu ia para escola, ele estava na janela, me dava um sorriso tímido e corava. As vezes, estava animado e puxava assunto, quase me atrasava, me atrasou, eu gostei, mesmo tomando bronca pelo atraso. Quando nossos desencontros eram maiores, a excitação dele o levava a me esperar na calçada. Dizia ele: você sumiu! Beijava me perto do pescoço, cheirava meu cabelo e fazia cara de sério, corava.


Aos finais de semana, ficávamos mais próximos possíveis, ao mesmo tempo que éramos acometidos por uma certa distância. Um dia, ele encontrou um meio  de diminuir esta distância, pegou meu braço delicadamente, esticou e com seu indicador direito, escreveu em letras invisíveis algo para mim. Meu coração acelerou, tive dificuldades de juntar as letras, por uns instantes meu coração quase me deixou analfabeta, mas por sorte, esse gesto se tornou frequente, nas minhas costas, no meu pescoço, nas minhas mãos. Era uma delicadeza de alguns adolescentes dos anos 90.




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