Falta de educação
Falta de educação
À beira de um mar que não pertence a ninguém, ergueram-se muros invisíveis e varandas de luxo que ousam clamar a posse das ondas. Ali, a natureza exuberante é aprisionada por uma suposta meritocracia que, em sua face mais vil, nada mais é do que o privilégio de ter nascido do lado certo da cerca. Sob o sol que deveria ser de todos, nativos são convertidos em sentinelas da exclusão, fincando guarda-sóis como bandeiras de guerra para demarcar territórios e garantir que o horizonte permaneça limpo de "presenças indesejadas".
Nesse teatro de areia, o "estrangeiro" — o filho da mesma terra, mas de outra classe — é empurrado sistematicamente para a margem, uma fronteira social de onde o retorno é negado. A moça de biquíni caro, cuja pele carrega a ancestralidade que ela tenta silenciar, torce o nariz diante do espelho de sua própria origem. Seus adjetivos cortantes são flechas lançadas contra os moços periféricos que, ilhados por olhares de repulsa, utilizam o funk em volume máximo como o único grito capaz de romper a barreira do desprezo. Por trás de óculos espelhados, os olhos dos excluídos refletem a farsa de uma civilidade que os ignora, devolvendo em batidas graves a violência que recebem em silêncio.
Ao cair da tarde, a contradição se completa quando a mesma jovem, protegida pelo conforto da pousada, liberta o som que antes condenava. O rock alternativo distorce agudos e graves, invadindo o espaço alheio com a mesma prepotência que criticara na areia. Entre risos e relatos indignados, ela narra o "embaraço dos manos", cega para o fato de que sua falta de educação é apenas o privilégio fantasiado de etiqueta, enquanto o som aumenta, abafando qualquer vestígio de autoconhecimento.

Comentários