Vila Mariana meu amor
Vila Mariana meu amor
Vila Mariana, meu eterno bem-querer, por onde começo a tecer essa memória? Talvez pelo abraço das esquinas da França Pinto com a Humberto I, o coração pulsante onde a amizade se encontrava para decidir o destino do dia. Ora buscávamos o refúgio de uma travessa perto da Belas Artes para o duelo lúdico do taco, ora o descortinar do prédio de tijolinhos, onde o espaço se abria para uma plateia enigmática e feérica. Naquela janela à esquerda, o delírio era certo: gritos e aplausos compunham a trilha sonora de uma torcida que pedia fumaça e oferecia vida. Eu e Andréa, mensageiras de cigarros furtados, éramos as divas de um palco de concreto, recebidas pelo sorriso largo de Bill e seus brindes de calor estranho e visceral.
Descendo as ladeiras do tempo até a Rua Áurea, a estranheza se vestia de arte pelas mãos de Betão, mestre em extrair o belo do esquecimento, embora a própria alma por vezes se dissolvesse em eclipses de desapego absoluto. Perto dali, o mistério se personificava em Virgínia e Humberto, figuras que desafiavam o olhar alheio com sua união insular e vestes espelhadas, carregando o pequeno Xuxu — um poodle que era a voz viva entre as quinquilharias de um carrinho de supermercado.
Havia também a doçura ríspida de Zé, o guardião dos bons costumes que habitava o jardim da Domingos de Morais. A cegueira, que o acompanhava desde a infância, transformava sua bengala em uma bússola por vezes infiel, e nós, em meio ao caos das brincadeiras, parávamos o mundo para sermos seus olhos por um instante, ainda que a gravidade, às vezes, fosse mais rápida que nosso zelo.
A memória ainda guarda o aroma das fogueiras no Instituto Biológico, a bênção etílica de um padre inesquecível e o sabor acetinado da torta de morango da Doceria Azul. Diante de nós, o castelo árabe dos irmãos professores erguia-se como um relicário de sabedoria, onde cada visita era um mergulho em histórias milenares. Entre tragédias mansas e comédias urbanas, tombos de bicicleta e o despertar dos primeiros amores, Vila Mariana permanece como o cenário sagrado de tudo o que fomos. Sinto que o agora me chama para celebrar essa saudade no Ypê, onde o hambúrguer mantém o gosto de um tempo que não se apaga.


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