Hei! Não confunda minha gentileza com flerte.
Hei! Não confunda minha gentileza com flerte.
Sob o azul que a chuva limpa, vou tateando a ideia de que a compaixão sem fronteiras é, muitas vezes, um convite ao naufrágio. A filosofia oriental me sugere a fluidez da água, mas até a água precisa do desenho das margens para não virar pântano. Impor limites não é abandonar a doçura, ainda que, na prática, o desenho da fronteira exija uma crueza que não desejávamos. Minha gentileza não deveria ser um território sem dono, mas admito: ainda aprendo a não deixar qualquer carência fincar bandeira por aqui.
Busco uma firmeza que não precise gritar. Se antes eu usava a fofura como escudo de papel, hoje tento a têmpera do bambu — flexível, sim, mas com uma fibra que não se deixa esmagar. O limite é um exercício de amor-próprio, eu sei, mas é também o aviso de que minha escuta não é um balcão de negócios.
Digo isso porque outro dia, entre um café e digressões sobre sutras, a cena aconteceu. Eu estava lá, interessada na arquitetura das ideias, estudando o texto mental do outro. E ele, limitado a uma geografia bem mais rasteira, a um palmo abaixo da alma, pediu um beijo. É um choque térmico estranho. Não houve grandes dramas, apenas a constatação de um descompasso: o satori do diálogo atropelado pelo atalho do desejo.
Os desejos se desencontram, isso é do humano. O que fica, porém, é esse vão entre o que eu digo e o que o outro escuta - e vice-versa. O equívoco de quem lê hospitalidade como oferta e profundidade como convite. Desta vez, o limite ganhou memória por necessidade de clareza. Fica esse recuo, essa ironia de quem se cala diante de uma língua que já não faz sentido traduzir.
Sigo desenhando esse mapa invisível, tentando entender onde termina a minha entrega e onde começa a distorção alheia. É uma tarefa cotidiana e, às vezes, bem pouco poética. No fim das contas, a gente só queria que o respeito fosse a língua franca, sem precisar de legenda.
Fica o registro desse equívoco comum, quase banal: não confunda minha gentileza com flerte. Minha educação é apenas isso, educação. O resto é a projeção de quem esta desejando algo diferente e nesse encontro de mentes, constatei um encontro no desencontro. Um na gentileza e o outro no flerte.


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